A Polícia Federal identificou indícios de desvio de recursos em uma emenda parlamentar de R$ 199 mil destinada por Flávio Bolsonaro a um projeto de futebol no Rio de Janeiro. A liberação foi negociada, em 2023, entre uma assessora do senador e Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, condenado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento no assassinato de Marielle Franco.
O dinheiro foi encaminhado ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), entidade localizada no bairro Taquara. A área é apontada como de influência de Chiquinho Brazão e Domingos Brazão, condenados pelo STF como mandantes da morte da vereadora.
Conversas sobre a emenda
As tratativas aparecem em mensagens extraídas pela PF do celular de Calixto, apreendido em março de 2024 durante uma operação relacionada ao caso Marielle. O contato da assessora Maria de Fátima Bezerra Castro estava salvo como “Fafa Flávio Bolsonaro”.
Calixto pediu ajuda para obter recursos do senador. Maria de Fátima solicitou que ele encaminhasse um e-mail ou ofício com a demanda. Depois, perguntou quando ele iria a Brasília. O miliciano respondeu que viajaria em novembro e perguntou se seria possível conseguir algum auxílio.
As conversas continuaram até março de 2024, com cobranças por novidades e pedidos para que o senador não esquecesse o Ifop. Em uma mensagem de 22 de março de 2024, Calixto escreveu: “Consultamos as destinações parlamentares e não tinha nada do nosso Senador, porém estamos no aguardo”.
Em outra conversa, Maria de Fátima convidou o assessor de Chiquinho Brazão para uma cerimônia de entrega de coletes à Polícia Militar do Rio. A ideia era que ele cobrasse Flávio Bolsonaro pessoalmente sobre a liberação dos recursos.
As mensagens também registram um pedido da assessora por 4 ingressos para o desfile das campeãs, em um camarote na Sapucaí. Os investigadores classificaram a solicitação como vantagem indevida.
Condenações e defesa
Chiquinho Brazão e Domingos Brazão receberam, cada um, pena de 76 anos e 3 meses de prisão pelo STF. Calixto foi condenado a 9 anos de reclusão por integrar uma milícia.
A assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que os repasses seguiram a lei e os critérios técnicos do Ministério do Esporte. Também declarou que a entidade apresentou notas fiscais dos materiais comprados e devolveu os valores não utilizados. Segundo a defesa, eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle.
O advogado de Calixto, Gabriel Habib, não respondeu aos contatos. Cleber Lopes, que representa Chiquinho Brazão, informou que não se manifestaria. A defesa de Domingos Brazão disse que não cuida do tema relacionado às emendas.
Em julho, a PF abriu uma operação para investigar suspeitas de desvios de emendas destinadas por Chiquinho Brazão a organizações não governamentais no Rio. A apuração envolve suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, além do uso de empresas interpostas e pagamentos indevidos para ocultar a origem e o destino dos recursos.







