A startup Nanobiocell desenvolveu uma membrana de biocelulose que pode permanecer sobre uma ferida por até sete dias sem troca. Chamada Safelayer, a tecnologia foi criada para o tratamento de feridas crônicas e queimaduras e está na etapa final de desenvolvimento antes da chegada ao mercado. O produto ainda aguarda procedimentos regulatórios junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Formada por nanofibras de biocelulose, a membrana cria uma cobertura sobre a lesão. Segundo a empresa, a estrutura ajuda a manter a hidratação da pele, absorver secreções e proteger a região. A Nanobiocell também afirma que o curativo pode contribuir para reduzir a dor e o risco de infecções. A permanência por vários dias diminui a necessidade de manipulação frequente da ferida.
A empresa foi criada em 2020 pelas pesquisadoras Katiusca Wessler Miranda e Janaina Lisi Leite Howarth, professoras universitárias que atuam na área de biomateriais. A proposta inicial era produzir nanocelulose para fornecer a setores como alimentos, papel e celulose, indústria têxtil e farmacêutica.
Os primeiros testes tiveram resultados positivos, mas a produção da matéria-prima para outras empresas enfrentou dificuldades relacionadas à escala e ao custo. Após conversas com médicos, enfermeiros, pacientes, distribuidores e farmácias, as pesquisadoras identificaram uma aplicação mais específica: uma cobertura para feridas de difícil cicatrização.
“Transformamos uma tecnologia que poderia ser apenas um insumo em um produto com aplicação direta na área da saúde”, afirma Katiusca. A partir dessa mudança, a Nanobiocell concentrou o desenvolvimento na Safelayer.
Desenvolvimento e capacidade de produção
Durante a Jornada de Empreendedorismo, Desenvolvimento e Inovação (JEDI), as pesquisadoras elaboraram o primeiro plano de negócios. A participação na segunda edição do Programa Centelha ajudou a financiar a estrutura inicial para transformar a pesquisa em produto.
“Tínhamos uma boa ideia, mas não tínhamos recursos para testar. Os programas mudaram isso. Por exemplo, com o Centelha conseguimos montar nosso primeiro laboratório de 16 m², onde começamos a produzir a nanocelulose”, conta Katiusca.
Com o apoio, a empresa estruturou o laboratório, fez testes em escala de bancada e avançou na validação técnica. O Programa Centelha reúne recursos, bolsas, capacitação e suporte para projetos selecionados. A iniciativa teve sua segunda edição lançada em 2020, com previsão de atuação nos 26 Estados e no Distrito Federal.
Atualmente, a Nanobiocell opera em uma fábrica de 140 metros quadrados e informa ter capacidade para produzir até 15 mil membranas regeneradoras por mês. A empresa está no nível TRL 6 (Technology Readiness Level), classificação que indica uma tecnologia demonstrada em ambiente relevante.
A meta é alcançar o TRL 9 até 2028, estágio relacionado à demonstração da tecnologia em condições reais de operação. Antes da comercialização, ainda são necessárias etapas regulatórias e de produção. A empresa também desenvolveu uma cobertura para queimaduras de primeiro grau e queimaduras solares, com lançamento previsto para 2027.
A trajetória da Nanobiocell está relacionada aos desafios das deep techs, startups baseadas em conhecimento científico ou tecnológico que precisam de tempo e recursos para transformar pesquisas em produtos comerciais. Para Katiusca, os programas de fomento foram importantes durante o período em que a empresa ainda não tinha receita com vendas.
“A Nanobiocell avançou por conta de programas de incentivo. Investimentos privados só vêm com a diminuição dos riscos. O tempo necessário para reduzir os riscos em deep techs pode ser alto”, afirma. A autorização da Anvisa será uma das etapas decisivas para que a Safelayer chegue a pacientes e profissionais de saúde.







