Em 1946, 20 castores canadenses foram levados para a Terra do Fogo, na Argentina, com a proposta de formar uma população destinada à produção de peles. O negócio não avançou, mas os animais permaneceram no ambiente, encontraram alimento e água em abundância e se reproduziram sem a presença de predadores naturais em quantidade suficiente.
Décadas depois, pesquisadores identificaram mais de 200.000 diques construídos pelos castores no arquipélago. As estruturas foram encontradas em áreas do território argentino e chileno e estavam distribuídas por aproximadamente metade da região analisada.
Expansão pelo arquipélago
Os primeiros animais foram soltos perto do lago Fagnano. A partir dali, ocuparam rios, arroios e áreas úmidas da Ilha Grande da Terra do Fogo. Registros indicam que a espécie chegou ao setor chileno ainda na década de 1960 e continuou avançando para outras ilhas.
A disponibilidade de cursos de água, árvores e arbustos favoreceu a expansão. A espécie também consegue modificar o ambiente e alcançar novos vales e bacias. Estimativas oficiais apontaram populações superiores a 100 mil animais e presença em aproximadamente 95% das bacias hidrográficas da Terra do Fogo.
Os diques são formados com árvores, troncos, galhos e lama. Eles reduzem a velocidade da água e criam áreas alagadas próximas às tocas. O total registrado não corresponde ao número de colônias existentes: algumas estruturas são antigas ou foram abandonadas, mas continuam alterando o fluxo dos rios, o solo e a vegetação.
Efeitos sobre as florestas
As florestas austrais da Terra do Fogo não evoluíram com a presença dos castores, diferentemente de muitas formações vegetais da América do Norte. Por isso, árvores nativas como lenga, guindo e ñire podem morrer quando permanecem em solos inundados por períodos prolongados.
A retirada da água não garante a recuperação imediata. Pesquisas encontraram áreas que, depois de alagadas, se transformaram em campos abertos, com regeneração natural limitada. Fontes oficiais argentinas estimam que cerca de 30 mil hectares de floresta nativa foram afetados. Algumas formações de lenga podem precisar de aproximadamente dois séculos para se recuperar.
Argentina e Chile mantêm estratégias de controle dos castores e de recuperação dos ambientes atingidos. O caso iniciado com a soltura de 20 animais é considerado por pesquisadores uma das maiores alterações na paisagem das florestas subantárticas desde a última era glacial. Após 80 anos, os diques ainda modificam rios, zonas úmidas e florestas do arquipélago.







