Episódios de intolerância contra símbolos católicos e religiões de matriz africana e afro-brasileira são apresentados como parte de uma estratégia que transforma diferenças de fé em conflito político. No centro dessa disputa está Nossa Senhora Aparecida, uma figura negra e popular cuja devoção se consolidou no Brasil ao longo de séculos.
O pastor que chutou uma imagem da santa e outro que a chamou de “Satanás fantasiado de azul” reaparecem como exemplos de ações fundamentalistas. Para Carlos Fidelis Ponte, presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz, o problema não deve ser tratado como uma briga entre católicos e evangélicos, mas como o uso da religião para conquistar poder e definir inimigos.
A devoção a Aparecida teve origem no século 18. Pio 11 a proclamou Padroeira do Brasil em 1930. Em 1980, uma lei sancionada por João Figueiredo estabeleceu 12 de outubro como feriado nacional. Na avaliação do autor, o Estado reconheceu uma tradição popular, sem criá-la.
Estado laico e disputa política
A proposta atribuída a Flávio Bolsonaro de decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, caso seja eleito, é usada no artigo para discutir os limites entre religião e governo. A Presidência deve representar pessoas de todas as crenças e também quem não segue nenhuma religião. Por isso, o Estado laico impede que uma fé seja imposta às demais.
O texto relaciona esse movimento à Teologia do Domínio, corrente que compreende a ocupação das instituições como parte de uma disputa religiosa. Segundo a análise, algumas dessas correntes se aproximam da extrema direita, da qual o bolsonarismo é apontado como uma expressão relevante no Brasil. O autor ressalta que essa identificação não deve ser aplicada a todos os conservadores ou eleitores de direita.
A análise também rejeita a ideia de que todos os excessos possam ser explicados apenas pela polarização. Como exemplos de radicalização política, cita a contestação da eleição de 2022, os acampamentos que pediam intervenção militar e o 8 de Janeiro. Também menciona uma bomba colocada em um caminhão-tanque com 63 mil litros de querosene de aviação perto do aeroporto de Brasília. Em 2024, Francisco Wanderley Luiz lançou um explosivo contra o STF e morreu ao detonar outro.
O artigo recorda ainda que, durante a pandemia, um apoiador de Bolsonaro derrubou cruzes instaladas em Copacabana em homenagem às vítimas da Covid-19. Um pai que havia perdido o filho voltou a fincá-las. O episódio é apresentado como exemplo de disputa em torno até mesmo do luto.
Intolerância e pertencimento
Para Ponte, desigualdade, exploração e insegurança podem alimentar ressentimentos, mas não definem sozinhas contra quem eles serão dirigidos. Em uma sociedade marcada pela escravidão, pelo racismo e por hierarquias de classe, a política pode direcionar a insatisfação a pessoas que não criaram essas desigualdades, especialmente pobres, negros e minorias vulnerabilizadas. Redes sociais e algoritmos, afirma, ampliam medos, preconceitos e ressentimentos.
O autor também defende responsabilidade pública de quem busca a Presidência. Falsidades, contradições e recuos repetidos, escreve, precisam ser examinados para saber se são episódios isolados ou um método. Acusações contra adversários podem ser investigadas, mas não substituem respostas sobre a questão original. O escrutínio deve alcançar todos, sem pressupor que frequência, gravidade e finalidade sejam sempre iguais.
O mesmo raciocínio é aplicado ao lema “Deus, Pátria, Família e Liberdade”. Deus não deve servir de justificativa para a intolerância; pátria não combina, segundo o artigo, com uma grande bandeira dos Estados Unidos hasteada no 7 de Setembro; família não pode ser usada para impor um único padrão moral; e liberdade precisa alcançar diferentes formas de pensar, crer, amar e viver.
A democracia, na avaliação apresentada, depende das urnas e do respeito ao Estado Democrático de Direito, mas também de soberania, inclusão e direitos. O autor afirma que instituições, imprensa, lideranças, intelectuais, formadores de opinião e cidadãos devem enfrentar mentiras e não tratar autoritarismo, intolerância e violência como fatos normais.
Encontrada por pescadores em 1717, a pequena imagem de Aparecida atravessou três séculos e diferentes regimes. Sua presença como símbolo popular e negro é apresentada como parte das contradições de um país marcado por escravidão, desigualdade e hierarquias raciais.
Defender o direito de católicos, praticantes de religiões de matriz africana e afro-brasileira e pessoas sem religião é, para Ponte, proteger a convivência em uma sociedade na qual ninguém seja obrigado a seguir uma crença ou excluído por sua origem, cor, condição social, religião ou modo de vida. A disputa em torno da imagem, conclui o autor, revela um conflito maior sobre quem pode pertencer plenamente à democracia.








