SÃO PAULO — O designer Humberto Campana, de 73 anos, vê o trabalho manual como uma forma de preservar tradições, gerar renda e responder às mudanças provocadas pela inteligência artificial. A avaliação foi feita durante a inauguração de uma loja temporária da Tiffany & Co. no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo.
“Me sinto voltando para trás. Acho que o fazer manual hoje é um ato político”, afirmou Humberto. Para ele, a manualidade preserva conhecimentos que estão desaparecendo e pode beneficiar pessoas sem acesso à educação. O designer também considera que o trabalho artesanal tem efeitos terapêuticos e ajuda a construir uma vida melhor.
Na instalação da Tiffany & Co., Humberto cobriu a fachada da loja com tramas em tons de azul, em uma composição que remete ao movimento das ondas do mar. A mesma linguagem aparece em banquetas de vime e metal, molduras de espelhos e peças produzidas com EVA.
Parceria com a Tiffany & Co.
O projeto foi feito com plástico reciclado. As cores reproduzem a paleta da marca, aplicada aos fios usados na trama, aos móveis e aos espelhos. A parceria entre o Estúdio Campana e a Tiffany & Co. começou há dois anos, durante a renovação da loja do Shopping Iguatemi, em São Paulo. Na ocasião, o estúdio desenvolveu vitrines, o café e parte do mobiliário.
O trabalho levou Anthony Ledru, CEO global da Tiffany & Co., a convidar Humberto para assinar vitrines da marca em outros países. Entre os endereços estão a Via Montenapoleone, em Milão, e a The Landmark, na rua 57, em Nova York. A Tiffany & Co. integra o grupo LVMH.
Após a morte de seu irmão, em 2022, Humberto passou a conduzir sozinho as atividades do estúdio. Ele afirma que continuou produzindo e ampliou projetos no Brasil, nos Estados Unidos e na Itália. Também realizou uma exposição em Xangai, na China.
Parque e Instituto Campana
O designer dedica parte do trabalho ao Parque Campana, em Brotas, no interior de São Paulo. O espaço de 52 hectares reúne arte, educação e natureza, com pavilhões projetados pelos irmãos. Humberto também atua no paisagismo do parque e em projetos como o mobiliário urbano e o calçamento da Alameda das Flores, em São Paulo. A inauguração está prevista para novembro.
Outra frente de atuação é o Instituto Campana, em Piracicaba, que trabalha com comunidades carentes. A organização mantém uma parceria com a Aliança de Misericórdia, que acolhe alcoolistas, dependentes químicos e pessoas sem rumo.
Entre os trabalhos mais conhecidos do designer estão a Cadeira Vermelha, de 1993, incorporada ao acervo do MoMA, e a Coleção Banquete, de 2002. O Estúdio Campana também criou o mobiliário do Café Campana, no Musée d’Orsay, em Paris. Peças do estúdio estão ainda nos acervos do Centre Pompidou e do Museum of Fine Arts, em Boston.
Ao falar de suas referências, Humberto destaca a diversidade cultural brasileira e o interesse pelos biomas do país. “Hoje em dia, quando tiro férias, prefiro viajar pelo Brasil”, disse.








