SÃO PAULO — A exposição Rembrandt — O Mestre da Luz e da Sombra reúne 69 gravuras do artista holandês na Caixa Cultural, em São Paulo. As obras pertencem a uma coleção particular italiana e percorrem quase quatro décadas de sua produção, dos primeiros experimentos às composições de maior complexidade técnica.
Entre os trabalhos está Autorretrato com Saskia, de 1636. Feita em água-forte, a imagem mostra Rembrandt usando um chapéu de abas largas, ao lado de sua esposa, Saskia. Sobre a mesa há uma folha de papel, enquanto o artista segura um instrumento de desenho. A obra combina o retrato do casal com a representação de Rembrandt em atividade profissional e marca a primeira vez que ele se apresentou dessa forma em uma gravura.
A maioria das peças tem tamanho próximo ao de uma figurinha de álbum da Copa do Mundo. Mesmo em áreas pequenas, Rembrandt concentrava personagens, planos, diagonais e feixes de luz. Em A Descida da Cruz, de 1633, esses elementos criam profundidade e orientam o olhar por meio da perspectiva e do contraste entre luz e sombra.
Gravuras como meio de circulação
Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu em 15 de julho de 1606, em Leiden, e se mudou para Amsterdã aos 25 anos. Ao longo da carreira, produziu mais de trezentas gravuras, usando a técnica para fazer seu nome circular para além da Holanda.
“Uma pintura permanece em uma casa, coleção ou igreja; uma gravura circula”, afirma Luca Baroni, curador da mostra. Segundo ele, as gravuras estavam entre as principais tecnologias de comunicação da Europa moderna e ajudavam a construir reputações antes da fotografia ou da internet.
A exposição também apresenta a maneira como o artista modificava suas matrizes. Em uma mesma placa, ele podia alterar a iluminação, retirar figuras ou reforçar sombras, criando novas impressões e versões de uma imagem. Para os colecionadores, reunir os diferentes estados de uma obra e completar séries fazia parte do interesse pelas gravuras.
Esse processo aparece em trabalhos sobre um mesmo tema, como A Adoração dos Pastores: cena noturna, de 1652, e A Adoração dos Pastores: com a Lâmpada, de 1654. Na primeira, Rembrandt combina água-forte e ponta-seca para explorar a luz e a sombra. A segunda é feita em água-forte, com desenho mais marcado.
A mostra inclui cenas bíblicas, paisagens, retratos de filósofos e imagens relacionadas ao trabalho e à vida urbana. As obras também revelam o uso combinado de água-forte, ponta-seca e buril. A Estrela dos Reis: cena noturna, de 1651, reúne as três técnicas.
A exposição já passou pelo Rio de Janeiro, por Belo Horizonte e por Vitória. Em São Paulo, permanece até 27 de setembro. “As obras de arte viajam justamente porque novos públicos produzem novos significados ao seu redor”, diz Baroni.








