A corrida pela inteligência artificial ocorre no centro das tensões entre Estados Unidos e China durante o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping na Casa Branca, nesta quinta-feira, 24 de setembro. A reunião é a segunda cúpula entre os dois líderes em quatro meses e acontece após meses de tensão diplomática.
O presidente americano afirmou que pretende discutir IA, mas não planeja alterar profundamente a forma como os Estados Unidos regulam a tecnologia. “A superinteligência é o futuro, e vamos liderar esse futuro”, disse Trump.
Xi defende uma abordagem em que a inteligência artificial seja integrada ao desenvolvimento econômico e à administração do Estado. Para o líder chinês, a competição precisa permanecer dentro de limites e pode permitir a coexistência pacífica entre os dois países.
Dois modelos para a inteligência artificial
A estratégia americana prioriza o desenvolvimento dos modelos mais poderosos no menor tempo possível. A avaliação predominante no governo e nas empresas dos Estados Unidos é que o país que alcançar primeiro a superinteligência poderá definir padrões globais e obter vantagens econômicas e militares nas próximas décadas.
Os Estados Unidos mantêm uma dianteira tecnológica de pelo menos seis meses na corrida global por IA. O país concentra quase três quartos da capacidade computacional mundial dedicada à tecnologia e possui mais de 5.400 data centers, dez vezes mais que qualquer outro país.
Empresas americanas também produzem a maior parte dos modelos de fronteira, como GPT e Claude. A China, por sua vez, enfrenta acesso menor a hardware avançado e depende de alternativas domésticas consideradas menos potentes.
O investimento americano em centros de dados e infraestrutura relacionada à IA deve alcançar US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032, conforme estimativas da Brookings Institution. A previsão equivale a uma média de 3,6% do Produto Interno Bruto por ano.
A tecnologia foi responsável por mais de 750 mil novos empregos nos Estados Unidos entre 2023 e 2026, segundo estimativas do LinkedIn. Até julho deste ano, os gastos com obras de centros de dados privados chegaram a US$ 37 bilhões, ajustados sazonalmente. O valor ficou cerca de US$ 9 bilhões acima do registrado nos primeiros sete meses do ano passado.
No mesmo período, os gastos privados com construção nos demais segmentos ficaram aproximadamente US$ 46 bilhões abaixo dos níveis do ano anterior. No segundo trimestre, as participações em ações e fundos mútuos nos Estados Unidos alcançaram US$ 63 trilhões, quase o dobro do valor do final de 2022.
Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle, cinco empresas classificadas como hiperescaladores, devem somar US$ 4,2 trilhões em investimentos de capital nos quatro anos encerrados em 2029. Parte crescente desses projetos, porém, é financiada por dívida, o que pode ampliar os riscos de uma desaceleração abrupta.
China amplia uso estatal e industrial
A estratégia chinesa não se limita à criação de modelos avançados. O objetivo é levar a IA para toda a economia e para diferentes níveis do Estado. O 15º Plano Quinquenal, divulgado em março, cita a tecnologia 52 vezes, cinco vezes mais que o plano anterior, e inclui um capítulo dedicado ao poder computacional.
A meta chinesa é incorporar IA em 90% da economia até 2030. O governo considera a tecnologia um instrumento de eficiência, controle e estabilidade interna.
O país também enfrenta população envelhecida, desemprego juvenil de 19%, crise imobiliária prolongada e dependência de chips inferiores aos produzidos pela Nvidia. Autoridades chinesas, entre elas Chen Yixin, chefe da espionagem, alertam para o risco de guerras cognitivas e campanhas de desinformação contra a segurança política e ideológica.
A China tem vantagens em áreas essenciais para a expansão da IA. Nos próximos cinco anos, deve adicionar quase seis vezes mais capacidade de geração elétrica que os Estados Unidos. O país também domina quase todos os minerais necessários para o hardware da tecnologia, controla exportações estratégicas e supera os americanos na implantação de robôs industriais.
Modelos chineses de código aberto, como Kimi K3, Qwen3.8-Max, GLM-5.3 e DeepSeek, são usados em diferentes mercados e avançam globalmente. A China também amplia sua presença em carros autônomos e drones; a DJI controla mais de 70% do mercado mundial.
Temas sensíveis ficam na agenda
A cordialidade exibida na recepção, com aperto de mão prolongado e elogios ao diálogo, não elimina os pontos de atrito entre os governos. Taiwan, a guerra comercial e as restrições americanas ao acesso chinês a tecnologias estratégicas continuam entre os temas delicados.
Scott Bessent, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, informou que negociadores dos dois países concordaram na quarta-feira, 23, em prolongar a trégua comercial até 10 de janeiro. Ele também sugeriu a criação de uma linha direta para tratar dos riscos de segurança relacionados à IA.
A questão de Taiwan deve ser discutida em reunião privada. Durante uma visita a Pequim em maio, Trump fez declarações sobre a ilha que, segundo a imprensa americana, reduziram o apoio dos Estados Unidos a Taiwan. Após uma advertência de Xi, o presidente americano suspendeu temporariamente uma venda de armas que estava sendo negociada.
Nenhum dos temas deve ter solução imediata, de acordo com assessores dos dois lados. A cúpula ocorre, portanto, com a tentativa de reaproximação entre Washington e Pequim convivendo com a disputa pela liderança tecnológica e com diferentes projetos para o futuro da inteligência artificial.








