David Robert Mitchell transformou um pesadelo recorrente de infância em Corrente do Mal (It Follows), filme de terror centrado em uma entidade que persegue pessoas amaldiçoadas. Na infância, por volta dos dez anos, o diretor sonhava com uma figura que caminhava lentamente em sua direção. Embora conseguisse fugir, ele continuava sendo perseguido por uma criatura capaz de assumir diferentes formas.
A abertura do filme apresenta uma jovem que deixa a própria casa descalça, corre pela rua e foge de carro até a praia. Depois de gravar uma mensagem para a família, ela é encontrada morta na manhã seguinte. A sequência define o clima de paranoia que acompanha a história.
A maldição passa de uma pessoa para outra por meio de relações sexuais. A entidade pode aparecer com diferentes aparências humanas e só interrompe a perseguição quando alcança e mata a vítima. Em seguida, volta a seguir quem transmitiu a maldição.
Jay, interpretada por Maika Monroe, torna-se o novo alvo depois de fazer sexo com Hugh. Drogada e amarrada pelo rapaz, ela descobre a existência da criatura e as regras que determinam seu funcionamento. A partir desse momento, precisa buscar uma forma de continuar viva diante de uma ameaça que pode surgir a qualquer instante.
A fotografia, a montagem e as cores aproximam o filme de uma experiência entre o sonho e o pesadelo. Como a entidade só é percebida pelos amaldiçoados e pelo público, o espectador acompanha a mesma insegurança de Jay. A atuação de Maika Monroe reforça o desespero da personagem.
A criatura remete a Michael Myers, de Halloween, mas apresenta características próprias. Qualquer pessoa pode esconder a entidade, e espaços abertos ou iluminados não garantem proteção. A perseguição contínua sustenta a narrativa, já que a ameaça permanece possível mesmo quando Jay acredita ter encontrado uma saída.
A maldição também permite uma leitura relacionada às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). No Brasil, os registros de sífilis adquirida foram de 69,9 mil em 2015 para 256,8 mil em 2024. No Rio Grande do Sul, a taxa de detecção alcançou 160,7 casos por 100 mil habitantes, enquanto a média nacional ficou em 120,8.
O HPV é outra IST mencionada na discussão. Estudos nacionais indicam que quase seis em cada dez jovens sexualmente ativos, entre 16 e 25 anos, têm o vírus. A vacinação é apontada como uma das principais formas de prevenção, embora a cobertura vacinal ainda seja um desafio.
O HIV continua presente, apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento. O uso de preservativos, a testagem e o acesso à profilaxia pré e pós-exposição aparecem como medidas para evitar novas infecções.
David Robert Mitchell já afirmou que o filme comporta interpretações diferentes. A transmissão da maldição pode ser vista como uma metáfora para o medo das consequências de uma relação sexual. No filme, a tentativa de escapar envolve passar a ameaça a outra pessoa. Na vida real, as ISTs não são uma sentença inevitável.
A partir deste fim de semana, o Magazine apresenta uma série especial de filmes para celebrar o Dia das Bruxas. O terror será destacado nas próximas semanas, com histórias voltadas ao medo e à reflexão.







