Flávio Bolsonaro tenta ampliar seu eleitorado para além da base do pai, Jair Bolsonaro, ao apresentar uma imagem de político moderado. A estratégia, porém, enfrenta questionamentos sobre conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, suspeitas de rachadinha e vínculos com o miliciano Adriano da Nóbrega.
O senador foi escolhido por Jair Bolsonaro para disputar a Presidência pelo PL e subiu nas pesquisas desde o anúncio, feito em dezembro. Em um eventual segundo turno, ele aparece empatado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conforme o agregador de pesquisas mencionado no levantamento.
A campanha de Flávio usa vídeos sobre a rotina familiar e posicionamentos diferentes dos adotados pelo pai. Em uma das gravações, ele afirma ser o Bolsonaro que tomou vacina. Também publicou conteúdos sobre a importância do Carnaval para a economia, os feminicídios, a falta de creches e a luta pelos direitos das mulheres.
Conversas com Daniel Vorcaro
A estratégia sofreu pressão após a divulgação de conversas em que Flávio cobrava de Vorcaro aportes para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro. O banqueiro teria repassado ao menos R$ 61 milhões no ano passado, enquanto o acordo de financiamento chegaria a R$ 134 milhões.
Vorcaro está preso e negocia um acordo de delação premiada com potencial para atingir autoridades. Flávio nega ilegalidades e afirma que buscou patrocínio privado para uma produção sobre o próprio pai. Segundo o senador, não houve oferta de vantagens, encontros fora da agenda, intermediação de negócios com o governo ou recebimento de dinheiro.
Para Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel, o episódio dificulta a tentativa de reduzir a rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro e a acusações de corrupção. A campanha também é contestada pelo PT, que apresenta Flávio como representante da extrema-direita e defensor das mesmas agendas do ex-presidente.
Pesquisas e disputa pelo eleitorado
Levantamentos internos da pré-campanha indicaram crescimento entre jovens, pessoas de classe média e mulheres. Na comparação entre dezembro e maio, Flávio avançou nove pontos percentuais entre eleitores de 16 a 34 anos, chegando a 45%, contra 38% de Lula.
Entre os eleitores com renda de 2 a 5 salários-mínimos, passou a 44%, ante 40% do presidente, depois de subir seis pontos percentuais. Entre as mulheres, avançou de 31% para 36%, enquanto Lula registrou 45% no levantamento de maio.
Sanches estima que entre 10% e 12% do eleitorado não esteja alinhado automaticamente com nenhum dos dois polos da disputa. Esse grupo pode decidir o voto mais perto da eleição, mas a intenção registrada neste momento não necessariamente se converterá em uma migração definitiva para Flávio.
Acusações no Rio de Janeiro
Antes de chegar ao Senado, Flávio foi deputado estadual no Rio de Janeiro por 16 anos, de 2003 a 2018. Nesse período, surgiram suspeitas de desvio de verba parlamentar, compra de imóveis com dinheiro vivo e manutenção de funcionários fantasmas em seu gabinete.
O caso ganhou força no final de 2018, quando o Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontou movimentações milionárias na conta de Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2020, o Ministério Público acusou Queiroz de operar um esquema que recolhia parte dos salários dos servidores em benefício do parlamentar.
De acordo com a denúncia, 12 funcionários fantasmas receberam R$ 6,1 milhões. O Ministério Público afirmou que ao menos R$ 2 milhões foram para a conta de Queiroz e outros R$ 2 milhões foram disponibilizados por meio de saques em espécie. Também foram identificados pagamentos em dinheiro vivo de 169 boletos da família de Flávio, que somaram R$ 247 mil.
Flávio nega as acusações e afirma que Queiroz tinha autonomia para administrar pessoas que trabalhavam em atividades de rua, eventos e panfletagem. O caso foi paralisado por decisões judiciais sobre o foro privilegiado e a legalidade das provas. O Ministério Público do Rio de Janeiro informou que a investigação foi encerrada após decisão do ministro Gilmar Mendes, em fevereiro de 2025.
Relações com policiais acusados de milícia
Durante os quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Flávio homenageou policiais militares, entre eles Adriano da Nóbrega, em 2003 e 2005. Adriano foi expulso da Polícia Militar em 2014, acusado de atuar na segurança de contraventores e, posteriormente, apontado como miliciano e chefe do Escritório do Crime. Ele morreu durante uma operação policial na Bahia, quando estava foragido.
A mãe de Adriano, Raimunda Magalhães, e sua então esposa, Danielle Mendonça da Costa, trabalharam no gabinete de Flávio até 2018. O senador afirma que não conhecia as atividades criminosas atribuídas a Adriano e que manteve as duas no gabinete porque considerava que trabalhavam bem.
Flávio também nega defender milícias. As suspeitas relacionadas ao gabinete e aos vínculos com Adriano permanecem entre os principais pontos que a campanha terá de responder ao tentar apresentar o senador como uma alternativa moderada dentro do bolsonarismo.








