A despedida de Sebastião terminou com uma recepção de calouro. Depois de concluir a escolarização básica e passar por um processo seletivo, ele deixou o carrinho de café para frequentar um curso técnico no prédio diante do qual trabalhou durante três décadas.
O anúncio ocorreu em uma segunda-feira, quando Sebastião informou que aquela seria sua última semana na calçada. Clientes perguntaram se ele estava doente ou se enfrentava problemas com o aluguel do depósito. Sem revelar o motivo, ele prometeu explicar tudo na sexta-feira.
No encerramento, dezenas de pessoas se reuniram perto do toldo. Um professor entregou a Sebastião um álbum com fotografias de diferentes gerações. Em seguida, o vendedor mostrou um envelope com a confirmação de matrícula em um curso técnico oferecido no período da manhã. Os horários coincidiam com o funcionamento do carrinho, por isso ele precisaria abandonar o ponto.
A decisão foi resultado de uma mudança iniciada anos antes. Na adolescência, Sebastião havia deixado a escola para ajudar em casa. Lia frases simples e fazia contas de troco, mas tinha dificuldade com textos longos. Após uma estudante lhe falar sobre aulas noturnas, guardou o endereço e não apareceu. Mais tarde, depois de ver a formatura dela, decidiu se inscrever em uma turma de educação básica para adultos.
Durante quase seis anos, ele estudou três noites por semana depois de encerrar o expediente. Lavava os copos, levava o carrinho ao depósito, trocava de roupa e pegava dois ônibus até a aula. No começo, lia devagar e evitava falar. Com o tempo, passou a escrever mensagens sem pedir revisão, compreender melhor as notícias e controlar o estoque em uma planilha simples.
Sebastião contou que não buscava um diploma para apagar os trinta anos de trabalho. Queria aprender mais sobre administração e talvez abrir uma pequena cozinha. Os estudantes organizaram uma mochila com cadernos, canetas e uma garrafa térmica, mas ele recusou uma coleta em dinheiro e disse que começaria o curso com a reserva que havia construído.
Na primeira manhã sem o carrinho, Sebastião chegou cedo por hábito. Parou diante da calçada vazia e entrou. O porteiro pediu sua carteirinha de aluno. Pela primeira vez, ele atravessou o portão não como vendedor, mas como estudante.
O antigo ponto recebeu outro vendedor, que aprendeu com Sebastião algumas receitas e conheceu seus clientes. Ele ainda aparece nos intervalos para tomar café e conversar.







