O ex-banqueiro Daniel Vorcaro reclamou de publicações em que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) criticava a presença de autoridades em um evento patrocinado pelo Banco Master, realizado em Londres, em abril de 2024. Em uma mensagem, afirmou: "Banquei todos os voos dele". A informação foi divulgada pela coluna de Juliana Dal Piva.
O que aconteceu
O comentário apareceu durante uma conversa de Vorcaro com o empresário Flávio Carneiro. Naquele mês, o ex-banqueiro escreveu: "Esse Nikolas, eu banquei todos os voos dele". Ele, porém, não especificou quais viagens teriam sido pagas.
Nikolas reconheceu que teve dois contatos com Vorcaro, mas declarou que nunca conversou com ele sobre qualquer irregularidade. O parlamentar também afirmou que nenhum contrato foi concluído e que nunca recebeu dinheiro do ex-banqueiro.
Em 2022, Nikolas utilizou por cerca de dez dias um jatinho de Vorcaro para fazer campanha para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O pastor Guilherme Batista, da Igreja Lagoinha, liderada pelo pastor André Valadão, acompanhou o deputado na viagem. Quando o episódio veio a público, Nikolas afirmou que, inicialmente, não sabia quem era o proprietário da aeronave.
Na conversa com Carneiro, Vorcaro indicou que poderia tornar o deputado alvo de exposição. Em um trecho, escreveu "Vouch [sic] mandar soltsr isso", aparentemente com erros de digitação nas palavras “vou mandar soltar isso”.
O empresário respondeu classificando as manifestações públicas de Nikolas como “babaquice” e disse que elas poderiam gerar consequências. Segundo Carneiro, a situação poderia virar tema de debate no Congresso, além de ser usada para atacar os envolvidos sem que fossem avaliados os efeitos da iniciativa.
O evento mencionado foi o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, organizado pelo Grupo Voto e financiado pelo Master. Entre os participantes estavam o ex-presidente Michel Temer; o procurador-geral da República, Paulo Gonet; o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues; e ministros do STF, como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Também participaram integrantes do Superior Tribunal de Justiça e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministros de Estado, como Ricardo Lewandowski, da Justiça, e Jorge Messias, da Advocacia Geral da União, além de parlamentares.
Na época, Nikolas questionou a transparência do encontro e disse que pediria informações sobre o custeio das viagens. Em uma publicação no X, afirmou que solicitaria, por meio da Lei de Acesso à Informação, dados para saber se as despesas de viagem dos ministros do STF, STJ e TSE, além de ministros e aliados de Lula, haviam sido pagas com dinheiro público. Ele também defendeu que fosse esclarecido o “real motivo” dos deslocamentos.
Em outra publicação, Nikolas voltou a mencionar as despesas de Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Dias Tofolli e Benedito Gonçalves, questionando se os gastos relacionados à viagem dos ministros e aliados de Lula para o evento em Londres haviam sido bancados pelo poder público.
Vorcaro procurou André Valadão para reclamar das publicações. Ao pastor, disse que o encontro reunia várias pessoas de direita e apoiadores do evento, incluindo pessoas que haviam apoiado Nikolas, e que o deputado teria incentivado e propagado um ataque contra ele. Para Vorcaro, a manifestação prejudicava o discurso do grupo.
Valadão disse ter conversado com Nikolas. De acordo com o pastor, o deputado afirmou que não sabia que o evento em Londres havia sido pago pelo Master. Valadão também relatou que falou com Nikolas sobre o apoio e o apreço existentes entre eles e que, às vezes, as informações chegavam ao parlamentar de maneira diferente da realidade.
O dono do Master perguntou então se eles continuavam do mesmo lado ou se haviam passado a ser adversários.
Em áudio encaminhado a Vorcaro em março de 2025, Nikolas retomou o episódio e pediu desculpas pelas publicações críticas ao banqueiro. Ele disse que havia conversado com Valadão na época e explicado que não sabia que aquele era o banco de Dani. Acrescentou que, se tivesse essa informação, não teria feito a publicação e teria falado antes com Vorcaro. Também afirmou que uma palavra dita não podia ser retirada, mas esperava que a situação tivesse sido esclarecida e sugeriu que os dois marcassem um encontro.
No mesmo áudio, Nikolas chamou Vorcaro de “Dani” e pediu ajuda para um amigo. A mensagem de voz foi enviada pelo WhatsApp em 30 de março de 2025, em nome do advogado Thiago Rodrigues de Faria, que foi assessor do parlamentar.
No encerramento da gravação, não ficou claro se Nikolas disse “abraço aí, Dani” ou “um abraço, lindão”. O deputado ironizou no Instagram a interpretação de que teria usado a expressão “lindão” e afirmou, em um story, que publicaria um vídeo sobre o assunto. Na publicação, disse que estava cortando o cabelo para ficar “lindão”.
Na gravação, Nikolas cumprimenta Vorcaro, pede desculpas por incomodá-lo em um domingo e diz que será breve. Em seguida, explica que um amigo e advogado, considerado por ele como um irmão, mencionou o nome de Vorcaro. Nikolas afirma que não tinha proximidade com o banqueiro, embora o conhecesse e desejasse conversar mais com ele.
O deputado relata que o advogado possui um ativo minerário que já havia passado pela análise técnica da empresa de Vorcaro. Segundo a descrição feita no áudio, o processo estava pendente e havia pessoas na empresa que tinham conhecimento do caso. Nikolas diz que poderia fazer um contato com Vorcaro e encaminhar o assunto, embora não soubesse exatamente do que se tratava.
Ele acrescenta que confiava totalmente no amigo e, por isso, estava repassando a demanda para que, caso houvesse interesse, o contato fosse encaminhado e as partes pudessem tratar do tema. Ao final, afirma que permanecia à disposição para qualquer outra questão.
Depois da repercussão, Nikolas publicou um vídeo no qual negou ter proximidade com Vorcaro e afirmou que não o chamou de “lindão”. Ele declarou que nunca usou essa palavra e questionou a importância dada ao entendimento do áudio. Segundo o deputado, a intenção teria sido apresentar a situação como se ele tivesse uma relação próxima com Vorcaro, comparável à atribuída a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, que, de acordo com a declaração, ficariam com o banqueiro fumando charuto e tomando uísque.







