SÃO PAULO — O bagre-cego de Iporanga, Pimelodella kronei, encontra alimento em ambientes subterrâneos do Vale do Ribeira sem depender da formação de imagens. Em cavernas, onde a luz desaparece por completo, o peixe usa informações que continuam disponíveis na água, como estímulos químicos, movimentos e sinais associados ao entorno.
A espécie é um peixe brasileiro adaptado à vida subterrânea. Tem olhos reduzidos e pouca pigmentação, características relacionadas à permanência em locais sem iluminação. Sua alimentação inclui pequenos organismos presentes nos cursos de água, cuja disponibilidade depende das condições do habitat e dos recursos que chegam da superfície.
O nome popular bagre-cego de Iporanga pode reunir espécies distintas de peixes subterrâneos. Neste caso, a referência é a Pimelodella kronei, estudada em Iporanga, e não a um peixe elétrico que use descargas para atacar ou mapear o ambiente.
Sensores que substituem a visão
Os barbilhões, estruturas semelhantes a bigodes localizadas ao redor da boca, ajudam o peixe a explorar o espaço e a perceber estímulos relacionados ao alimento e ao contato com o entorno. Outros sistemas sensoriais também detectam perturbações na água.
A busca não é feita por meio de uma presa iluminada ou de uma imagem nítida. O animal reúne pistas transportadas pela correnteza. Isso não significa que todo movimento seja interpretado perfeitamente ou que o alimento seja encontrado sem esforço. Obstáculos, fluxo da água e quantidade de recursos continuam influenciando essa procura.
Na escuridão permanente, a visão oferece menos informação do que em um rio iluminado. Os movimentos e sinais químicos, porém, continuam existindo. Os olhos reduzidos são compatíveis com a vida subterrânea, enquanto os barbilhões ampliam a exploração da área próxima à boca.
A ligação entre a caverna e a superfície
Cavernas têm condições próprias de circulação da água, entrada de matéria orgânica e conexão com a superfície. Mesmo sem luz para sustentar plantas fotossintéticas, materiais transportados por cursos de água podem levar recursos para o ambiente subterrâneo.
Por isso, a falta de claridade não significa ausência de vida. A organização do ambiente e suas fontes de energia são diferentes, e o alimento disponível depende dessas conexões. Alterações na paisagem, contaminação e mudanças no fluxo acima da rocha também podem alcançar os trechos subterrâneos.
Pesquisas sobre o bagre-cego de Iporanga empregaram captura, marcação e recaptura para analisar a dinâmica populacional. O acompanhamento permite investigar onde os animais aparecem, como as populações variam ao longo do tempo e quais condições podem afetá-las.
As pesquisadoras Eleonora Trajano e Ana Luiza Feigol Guil estão entre as autoras de trabalhos sobre o tema. A observação de alguns indivíduos durante uma visita, no entanto, não permite concluir quantos peixes existem ou se a população está aumentando.
A proteção da espécie depende do cuidado com o habitat e com as águas que o alimentam. Não capturar peixes, não despejar resíduos e respeitar as regras de visitação são medidas básicas. Em áreas abertas ao turismo, a presença de guia e o uso do percurso autorizado ajudam a evitar impactos.
Iluminar ou fotografar um animal não autoriza o visitante a tocá-lo, retirá-lo da água ou modificar o local onde foi encontrado. A escuridão favorece a adaptação do bagre-cego, mas não o protege de mudanças na água e no habitat.







