Rosângela sustentou os três filhos durante a infância e a adolescência com o trabalho de coleta de materiais recicláveis. Aos 45 anos, ela viu duas filhas concluírem a graduação em universidades públicas e o filho mais novo terminar um curso técnico.
Trabalho organizado pelos horários dos filhos
Rosângela começou a trabalhar com reciclagem quando a filha mais velha tinha sete anos. Antes, fazia serviços de limpeza e trabalhos temporários, mas os horários e a renda variavam. Uma vizinha que já recolhia materiais mostrou os locais onde papelão e garrafas eram deixados.
No início, Rosângela carregava dois sacos grandes. Meses depois, comprou uma carroça usada e ampliou o percurso. A rotina começava antes das 6h, enquanto os filhos ainda dormiam. Ela voltava para preparar o almoço e, em muitos dias, retornava às ruas durante a tarde.
O trabalho incluía separar papelão, latinhas e garrafas plásticas. O papelão era amarrado em grandes volumes, as latinhas ficavam em sacos menores e as garrafas eram prensadas para ocupar menos espaço. Materiais sem valor de venda eram deixados para trás, e a pesagem costumava ocorrer no fim do dia.
Quando o preço dos materiais caía, Rosângela precisava percorrer distâncias maiores para obter o mesmo valor. Alguns comércios, mercados e prédios passaram a separar papelão para ela.
Estudos e formaturas
Os filhos ajudavam ocasionalmente a separar materiais nos fins de semana, mas Rosângela insistia que a escola fosse a prioridade. A filha mais velha começou a se preparar para a faculdade ainda no ensino médio. Quando conseguiu uma vaga em uma universidade pública, a mãe demorou alguns dias para acreditar que não haveria mensalidade.
A formação exigia despesas com transporte, alimentação, livros e outros custos. Rosângela continuou na reciclagem e aumentava o percurso quando surgiam gastos inesperados. Quatro anos depois, acompanhou a primeira filha receber o diploma. Naquele período, a segunda filha já se preparava para tentar o mesmo caminho.
A segunda filha entrou em outro curso de uma instituição pública. Com a experiência anterior, a família conseguiu organizar melhor os gastos, e ela dividiu parte dos materiais e despesas com colegas. O filho mais novo, que havia escolhido um curso técnico, ajudava na separação dos recicláveis nos dias livres.
A família também comprou uma geladeira usada melhor e, depois, um computador simples para que as filhas não dependessem sempre dos laboratórios da universidade.
Quando a segunda filha se formou, Rosângela tinha 45 anos. Ela ainda trabalhava com a carroça, mas fazia trajetos menores porque as filhas começaram a contribuir com as despesas da casa. A mais velha conseguiu emprego na área de formação, a segunda foi contratada após um estágio e o filho começou a trabalhar depois de concluir o curso técnico.
A carroça permaneceu guardada no quintal, mas deixou de ser a única segurança financeira da família. O trabalho que começou para pagar comida, material escolar, transporte e contas da casa sustentou os três filhos e acompanhou a formação educacional de todos.







