A pessoa responsável por parte do atendimento de Augusto era a filha que ele incentivou a estudar. Após sentir uma forte pressão no peito durante uma rota de coleta, o homem foi levado ao hospital onde Clara trabalhava e a reconheceu pela voz e pelo nome bordado no jaleco.
Clara entrou na sala consultando a ficha e interrompeu o movimento por um instante ao perceber quem estava diante dela. Em seguida, coordenou os exames, conversou com os demais profissionais e explicou os procedimentos ao pai. Ela não era a única responsável pelo atendimento, mas integrava a equipe que tomaria as decisões. Augusto, emocionado, perguntou se a menina dos livros havia realmente chegado tão longe.
O caminho até a medicina
Clara tinha oito anos quando passou a acompanhar Augusto em parte do trabalho aos sábados. Durante a semana, ele mantinha a filha na escola. Nas manhãs de coleta, levava água, uma fruta e um casaco extra. Ela se interessava pelos livros que encontrava entre os materiais descartados e pedia que o pai guardasse os exemplares em melhores condições.
Em casa, Augusto limpava as capas e reunia atlas, dicionários e manuais de ciências. Ao dizer que a coleta não poderia ser o futuro da filha, ele falava do cansaço, dos ferimentos, da incerteza e das dificuldades para pagar as despesas. O conselho era para que Clara estudasse e pudesse escolher o próprio caminho.
Ela levou a orientação a sério, buscou bolsas de estudo e recebeu uma bolsa integral para cursar medicina em outra cidade. Para completar o valor da viagem, Augusto vendeu uma bicicleta antiga. Depois, os dois passaram a se falar principalmente por telefonemas curtos. Clara conciliava aulas, plantões de treinamento e trabalhos temporários, enquanto o pai continuava na coleta.
O reencontro
Clara concluiu o curso, iniciou a residência e começou a trabalhar em um hospital distante do bairro onde cresceu. Augusto sabia apenas que a filha atendia pacientes e dormia pouco. Ele guardava uma fotografia da formatura ao lado de um atlas recuperado anos antes.
Naquele dia, depois da pressão no peito, os colegas chamaram ajuda. O atendimento inicial indicou que ele precisava ser observado com urgência, e a unidade de referência era o hospital de Clara. Augusto chegou com a roupa de serviço e mais preocupado com o turno interrompido do que consigo mesmo.
Clara lembrou ao pai que não havia chegado sozinha. Citou as manhãs em que ele guardava livros, o dinheiro economizado para as passagens e a insistência para que ela permanecesse na escola. Augusto se recuperou e reduziu o ritmo por algumas semanas. Mais tarde, reconheceu que, embora a coleta não tivesse oferecido muitas escolhas a ele, seu trabalho ajudara a criar as escolhas da filha. Clara manteve o atlas antigo em uma estante do consultório.







