Pouco depois das 6h30, Marlene empurra uma mesa dobrável até a calçada, estende uma toalha florida e organiza as formas de bolo. Aos 60 anos, ela continua no mesmo ponto do bairro, onde começou a vender há quase duas décadas.
A barraca nasceu quando Marlene tinha 41 anos. Ela decidiu levar para a rua uma receita que preparava em casa para os filhos. Na primeira manhã, vendeu três bolos: fubá, chocolate e laranja. A mesa havia sido emprestada por uma vizinha, e os pedaços eram cortados na hora.
Mesmo com poucas vendas no início, Marlene voltou no dia seguinte e manteve a rotina. Em poucas semanas, moradores começaram a passar antes do trabalho para perguntar qual seria o sabor disponível.
Uma rotina conhecida pelos moradores
Com o passar dos anos, a barraca se tornou parte do cotidiano do bairro. Marlene conhece famílias pelo nome e acompanhou crianças que compravam bolo com os pais crescerem, começarem a trabalhar e retornarem com os próprios filhos.
Ela também identifica preferências e hábitos dos clientes. Sabe quem pede café sem açúcar, quem leva metade de um bolo para o trabalho e quem aparece às sextas-feiras em busca do sabor de coco. O primeiro bolo costuma ser cortado antes das 7h, enquanto clientes antigos fazem reservas por mensagem.
Os sabores variam conforme o dia. Pequenas sobras são levadas para casa, e, quando chove, a mesa fica sob uma cobertura improvisada.
Marlene já foi incentivada a abrir uma confeitaria, alugar um ponto comercial ou aumentar a produção. Chegou a considerar algumas dessas possibilidades, mas preferiu manter uma atividade que consegue administrar. A barraca paga parte das despesas da casa, permite que ela trabalhe perto de onde mora e preserva uma rotina de que gosta.
Ao redor do ponto, o bairro mudou. Um mercado deu lugar a uma farmácia, uma casa antiga foi demolida para a construção de um prédio e a praça recebeu iluminação nova. A rua também passou a ter mais movimento. Marlene trocou o guarda-sol, comprou formas novas e começou a aceitar pagamento por aproximação, mas manteve a mesa quase no mesmo lugar.
A permanência criou uma relação de confiança. Há clientes que deixam o dinheiro sem perguntar o preço, porque sabem que Marlene fará a conta certa. Outros vão até a barraca principalmente para conversar.
Aos 60 anos, ela reduziu um pouco a produção nos dias mais quentes, mas não pensa em abandonar o ponto. Quando não aparece, moradores perguntam se está tudo bem. Depois de quase vinte anos, a barraca se tornou uma referência para quem vive ao redor.







