A política de segurança pública de Nayib Bukele em El Salvador passou a influenciar propostas de candidatos de direita nas eleições brasileiras de 2026. Flávio Bolsonaro, Renan Santos e Romeu Zema defendem medidas como endurecimento penal, ampliação do sistema prisional, retomada de territórios e combate mais agressivo ao crime organizado.
A principal barreira para reproduzir o modelo salvadorenho no Brasil é a Constituição de 1988. As medidas que permitiram prisões em massa durante o governo Bukele envolveram restrições a garantias fundamentais que não poderiam ser aplicadas da mesma forma no país, segundo a professora de Direito Jenifer Moraes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas.
Bukele chegou à Presidência de El Salvador em 2019 e transformou a segurança pública em uma das prioridades de seu governo. Após uma escalada de violência em 2022, decretou um regime de exceção que ampliou os poderes de prisão e levou ao encarceramento em massa. A política foi associada à queda dos homicídios, mas também recebeu denúncias de tortura, detenções arbitrárias e outras violações de direitos humanos. O CECOT, megapresídio de segurança máxima, tornou-se um dos símbolos da estratégia.
Propostas dos candidatos
Flávio Bolsonaro é o candidato que faz referência mais direta ao modelo. Após se reunir com o ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, ele defendeu o aumento da população carcerária. Seu plano prevê cinco presídios federais de segurança máxima inspirados em El Salvador. Com as cinco unidades federais já existentes, eles formariam o Complexo Federal de Segurança Máxima, chamado de TREVA.
A proposta também prevê meio milhão de novas vagas no sistema prisional em quatro anos, com o objetivo declarado de retirar líderes de organizações criminosas de circulação e impedir que comandem facções de dentro das penitenciárias. O programa inclui bloqueio de ativos, combate à lavagem de dinheiro, redução da maioridade penal, penas mais duras, monitoramento eletrônico de agressores de mulheres, reforço da segurança nas fronteiras e instalação de mais de 1 milhão de câmeras.
Renan Santos, do Missão, propõe um regime jurídico específico para integrantes de organizações criminosas, com restrição de direitos, tribunais especializados e confisco patrimonial. O programa prevê retomada territorial, uso das Forças Armadas em determinadas circunstâncias e superpresídios inspirados no CECOT. Também inclui reconhecimento facial, drones, integração de bancos de dados e inteligência para identificar redes criminosas.
O programa de Romeu Zema prevê presídios de segurança máxima em regiões remotas e isoladas para integrantes de facções. O candidato também defende classificar organizações criminosas como terroristas, integrar Forças Armadas, polícias estaduais e Polícia Federal para recuperar territórios e reduzir a maioridade penal para 16 anos.
Diferenças entre os países
As gangues de El Salvador, principalmente MS-13 e Barrio 18, consolidaram poder em estruturas territoriais menores, com presença comunitária e atuação em extorsão e controle local. No Brasil, PCC e Comando Vermelho têm estruturas complexas, atuação que ultrapassa o território nacional e participação em mercados transnacionais de drogas, armas e lavagem de dinheiro.
Também há uma diferença no sistema penitenciário. Enquanto o governo Bukele usou as prisões para neutralizar gangues, PCC e Comando Vermelho surgiram em presídios e transformaram penitenciárias em espaços de articulação e recrutamento.
Para Jenifer Moraes, essa característica dificulta a ampliação do encarceramento sem controle estatal sobre o sistema. “O presídio em si, ele também gera violência”, afirmou. A Constituição garante devido processo legal, ampla defesa, contraditório e habeas corpus, princípios que entrariam em choque com medidas adotadas no estado de exceção salvadorenho.







