ESTEIO — A 49ª Expointer reúne, no Pavilhão da Agricultura Familiar, produtos de comunidades quilombolas, povos indígenas e assentamentos da reforma agrária. A participação combina comercialização, geração de renda e reivindicações por reconhecimento, respeito, território e enfrentamento ao preconceito.
A edição de 2026 tem 509 expositores de 216 municípios. O grupo inclui oito empreendimentos indígenas e três quilombolas, além de cooperativas e produtores assentados. Nos cinco primeiros dias, o pavilhão comercializou R$ 5,803 milhões.
Berenice Gomes de Deus, do Quilombo da Anastácia, em Viamão, levou peças feitas por diferentes comunidades quilombolas. A produção inclui bolsas, crochê, tricô, pinturas e sabão elaborado com óleo de cozinha reaproveitado. Para ela, a exposição pública do trabalho também ajuda a combater estereótipos e a afirmar a existência dos quilombos.
“Quilombola, para aparecer, não é só no 20 de novembro. Tem que aparecer sempre, em todos os lugares”, disse Gomes de Deus.
Artesanato indígena e defesa do território
A presença indígena inclui representantes das etnias Guarani, Kaingang e Xokleng. Júlia Gimenes, da aldeia Mbyá Guarani Guyra Nhendu, conhecida como Som dos Pássaros, em Maquiné, apresentou bichos de madeira, paus de chuva, balaios, brincos, colares, apitos e pulseiras.
O artesanato é uma fonte de renda para a comunidade, que utiliza os recursos das vendas para comprar itens necessários. Gimenes também relaciona a participação na feira à defesa dos direitos indígenas, incluindo a demarcação das terras e a manutenção do modo de vida das comunidades.
Produção de assentamentos
A Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap) levou arroz orgânico, geleias e extrato de tomate. Marcos Johnny dos Reis, assentado de Eldorado do Sul, afirmou que a feira permite apresentar a produção diretamente ao público e ampliar o conhecimento sobre o trabalho ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Segundo Reis, o arroz agroecológico da cooperativa chega a cerca de 280 mil sacas por ano e está em expansão. A produção utiliza bioinsumos, e parte dos alimentos que não é vendida diretamente é transformada em geleia ou extrato de tomate. Os produtos chegam a cerca de 50 pontos de feira na Região Metropolitana de Porto Alegre.
“A reforma agrária tem viabilidade. Precisamos avançar com ela e estruturar melhor os processos produtivos”, defendeu Reis.
A agricultura familiar começou a participar da feira em 1999, com 30 expositores. Em 2026, o pavilhão reúne 400 agroindústrias familiares, 74 empreendimentos de artesanato, 28 de plantas, mudas e flores e sete cozinhas. Há ainda 69 empreendimentos com certificação orgânica.
A primeira Feira da Agricultura Familiar ocorreu em um evento historicamente associado à pecuária, às máquinas agrícolas e aos grandes produtores rurais. A presença cresceu com a atuação de entidades, cooperativas e movimentos do campo. Em 2024, ao relembrar 25 anos da participação, o ex-secretário estadual da Agricultura José Hoffmann relatou que a instalação do espaço enfrentou resistência no fim dos anos 1990.
A Expointer termina neste domingo (6), no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio. A comercialização direta no Pavilhão da Agricultura Familiar continua durante o último fim de semana.








