A atuação de Eileen O’Shaughnessy foi essencial para a produção de George Orwell, mas permaneceu em segundo plano nas biografias do escritor. A escritora e poeta é o centro de A vida invisível da Sra. Orwell, livro de Anna Funder publicado no Brasil pela Companhia das Letras.
Funder investiga sete biografias de Orwell, todas escritas por homens, e identifica nelas um padrão: as mulheres aparecem pouco ou são retiradas do lugar de protagonistas. A autora afirma que essas obras transformam a trajetória do escritor em narrativas de omissão e usa documentos e notas de rodapé para recuperar pessoas apagadas dos relatos.
Uma carreira interrompida
Antes de se casar com Orwell, Eileen já havia construído uma trajetória própria. Nascida em uma família anglo-irlandesa de classe média alta, estudou literatura em Oxford com uma bolsa e teve J. R. R. Tolkien entre os professores. Depois, trabalhou como professora, leitora, cronista, palestrante e secretária. Em 1931, abriu o próprio escritório.
Em 1934, concluiu o mestrado em psicologia na University College London. Seu orientador, Cyril Burt, avaliava que ela tinha “capacidade acima do comum”. No mesmo ano, publicou o poema distópico Fim do século 1984. Funder relaciona o título ao romance 1984, de Orwell, lançado em 1949.
Os dois se conheceram na primavera de 1935, em Londres. Eileen recusou inicialmente o pedido de casamento, mas depois aceitou. Ao lado de Orwell, atuou como leitora, interlocutora e editora, além de cuidar das tarefas domésticas, fazer compras, cozinhar, datilografar e editar os textos do marido.
O sujeito escondido nas frases
Para a pesquisadora Maria de Lourdes Eleutério, autora de Vidas de Romance — As Mulheres e os Exercícios de Ler e Escrever no Entresséculos 1890-1930, esse trabalho doméstico reduz o tempo disponível para a produção intelectual feminina e sustenta a carreira de homens.
“Porque o trabalho doméstico é brutal”, afirma Eleutério. Ela observa que profissionais das artes precisam de tempo para elaborar suas obras, enquanto as mulheres permanecem responsáveis pela casa, pela comida, pelo marido e pelos filhos.
Em A Revolução dos Bichos, segundo Funder, Eileen convenceu Orwell a transformar um ensaio sobre Stálin e o totalitarismo em uma fábula. Durante a Guerra Civil Espanhola, trabalhou no Independent Labour Party, datilografou as anotações do marido e atuou em meio à perseguição stalinista. Ao reconstituir sua participação em Barcelona, Funder conclui: “Ficou claro que salvara vidas.”
No livro Homenagem à Catalunha, Orwell se refere a Eileen apenas como “minha mulher”. Funder também examina o uso da voz passiva, que apresenta ações sem indicar quem as realizou. A autora pergunta quem tomou cada decisão para localizar a participação feminina escondida na narrativa.
Depois da morte
Eileen morreu em 1945, aos 39 anos, durante uma histerectomia malsucedida. Orwell passou a procurar alguém que pudesse substituí-la, especialmente no trabalho de datilografia. Funder registra que o agente e o editor do escritor tentaram encontrar uma mulher disposta a ir à ilha escocesa Jura para executar esse serviço.
Eleutério afirma que as companheiras de escritores também influenciam a permanência das obras após a morte deles. Como exemplo, menciona Aurora Bernardes, primeira mulher de Julio Cortázar, que traduziu textos, organizou antologias, cuidou de inéditos e foi testamenteira do escritor.
A recuperação da história de Eileen ocorreu 80 anos depois de sua morte. Para Eleutério, pesquisadoras continuam encontrando mulheres pouco conhecidas na história da literatura. “Uma chama outra”, resume.








