A borboleta de asa de vidro, Greta oto, tem regiões das asas pelas quais o fundo permanece visível. O efeito não ocorre porque o inseto perdeu as estruturas que sustentam o voo, mas pela combinação entre escamas reduzidas, membrana exposta e uma superfície microscópica que diminui reflexos.
A estrutura das áreas transparentes
As asas das borboletas são membranas revestidas por escamas. Em muitas espécies, essas estruturas produzem cores e padrões. Na Greta oto, as regiões transparentes têm escamas menores, mais espaçadas e com formatos diferentes dos encontrados nas áreas opacas. Com isso, uma parte maior da membrana fica exposta e permite a passagem da luz.
A transparência não elimina as nervuras, que continuam sustentando a asa. As áreas coloridas também permanecem visíveis. Por isso, a aparência muda conforme a iluminação, o ângulo de observação e o fundo. Sobre uma superfície uniforme, a asa pode parecer discreta; em outra posição, as bordas escuras e os reflexos ainda destacam o inseto.
Na floresta, folhas, galhos e sombras mudam em distâncias curtas. A asa não apaga o corpo da borboleta, mas interrompe uma grande área de cor que poderia chamar atenção quando o animal está pousado. Em fotografias com fundo branco, o efeito pode ser menos perceptível porque há pouco contraste.
O papel das projeções microscópicas
Um estudo publicado na Nature Communications descreveu pequenas projeções distribuídas de maneira irregular na superfície da asa. Elas ajudam a reduzir a reflexão em diferentes ângulos, fazendo com que menos luz retorne diretamente ao observador. Assim, a área transparente se aproxima menos da aparência de um vidro brilhante e transmite mais luz.
O mecanismo depende de vários elementos: a membrana fina deixa parte da luz passar; as escamas reduzidas e espaçadas expõem mais essa membrana; as projeções microscópicas diminuem os reflexos; e as bordas e nervuras mantêm uma silhueta visível.
Microscopia eletrônica e medidas ópticas permitiram comparar as áreas transparentes com as partes opacas. Em grande aumento, os pesquisadores observaram projeções com alturas e intervalos variados. A distribuição irregular ajuda a explicar por que o efeito antirreflexo não depende de um único ângulo de observação.
Pesquisadores do Marine Biological Laboratory também examinaram o desenvolvimento das escamas e a superfície da asa em outro estudo. Esses trabalhos descrevem a anatomia e as propriedades da luz. Uma fotografia isolada não demonstra que a borboleta escape de um predador por causa dessas estruturas.
Transparência e camuflagem
A asa pode tornar o animal menos evidente no meio da vegetação quando o fundo aparece através dela. A predação, porém, também depende do movimento, do comportamento, do contraste e da visão do animal que caça. A transparência não funciona como um escudo, e sua vantagem em uma situação específica exige testes ecológicos próprios.
A borboleta vive em ambientes florestais nas Américas, onde pequenos deslocamentos alteram o fundo visto através das asas. O contraste entre as partes transparentes e as bordas escuras mostra que a aparência reúne funções e limitações.
A estrutura também interessa ao desenvolvimento de materiais transparentes. Lentes e painéis podem refletir luz e se tornar visíveis, enquanto a asa reduz esse efeito por meio de pequenas projeções. Reproduzir essa organização microscópica com resistência e em larga escala é um desafio de engenharia diferente da biologia do inseto.
A Greta oto não desaparece. Nervuras, bordas e áreas coloridas continuam presentes. O resultado é uma superfície que deixa a luz atravessar parte da asa e, ao mesmo tempo, reduz o reflexo que denunciaria sua presença.







