O cachorro chamado Chico retomou a rotina com o motorista Roberto depois de desaparecer por oito meses. Ao reaparecer no terminal, estava mais magro, com pelos grisalhos e uma das orelhas machucada. Mesmo assim, caminhou até o banco onde costumava esperar o ônibus e voltou a dormir no local.
Roberto trabalha há seis anos no mesmo terminal. Quando conheceu o animal, ainda fazia uma linha que chegava pouco depois das 22h. Chico aparecia quase todas as noites, sozinho, e se acomodava debaixo de um banco próximo à plataforma.
A aproximação começou com água. Depois, o motorista passou a levar biscoitos sem recheio e a oferecer a comida diretamente ao cachorro. Com o tempo, Chico se levantava quando percebia a chegada do ônibus e caminhava até a porta. Roberto passou a chamá-lo pelo nome, embora ninguém soubesse de onde o animal vinha ou onde ficava durante o dia.
A ausência começou em uma semana de janeiro. Roberto procurou informações com funcionários, perguntou aos seguranças e percorreu as ruas próximas após o expediente. Por algum tempo, continuou levando biscoitos no bolso e olhando sob o banco ao estacionar.
O reencontro e a volta ao banco
No começo da noite, Roberto viu um cachorro perto da entrada dos ônibus. O animal tinha o pelo mais ralo, o corpo mais magro e uma cicatriz na ponta de uma das orelhas. Quando o motorista desceu, ele se aproximou devagar e balançou a cauda.
Roberto reconheceu Chico pela forma como ele olhava e por uma mancha branca perto do peito. O cachorro aceitou água e comida, mas não permitiu que a orelha fosse examinada. Com ajuda de uma funcionária, o motorista conseguiu levá-lo a uma clínica veterinária. A lesão estava cicatrizada e parecia antiga. Chico também havia perdido peso e apresentava sinais de desgaste nas patas.
Na primeira noite de volta, o cachorro caminhou até o banco de sempre e se deitou sob ele. O comportamento se repetiu nas noites seguintes. Roberto voltou a levar biscoitos, colocou uma manta dobrada no local e tentou levar Chico para casa.
O animal passou uma noite na garagem do motorista, mas ficou inquieto pela manhã. Quando retornou ao terminal, caminhou diretamente até o banco. Roberto decidiu não forçar a mudança e passou a cuidar dele no local, com alimentação, vacinação e acompanhamento veterinário.
Chico já não corre quando o ônibus chega. Ele se levanta devagar, espera Roberto se aproximar e continua dividindo biscoitos com o motorista no fim do expediente. A orelha permanece torta, mas o ritual sob o banco foi retomado.







