Augusto descobriu uma caixa escondida no guarda-roupa durante uma arrumação da casa. Lídia pediu que ele não a abrisse e, depois de 37 anos de casamento, explicou que guardava ali objetos ligados à história dos dois.
A caixa, revestida por um tecido verde desbotado, estava atrás de mantas. Lídia contou que iniciou a coleção na viagem de lua de mel. Ela não escondia um acontecimento grave, mas tinha medo de que Augusto risse dos itens, os descartasse durante uma limpeza ou não entendesse o valor sentimental que tinham para ela.
Objetos ligados a momentos do casal
Entre os primeiros itens estava um ingresso de cinema quase apagado. Lídia associou o papel a uma sessão realizada no segundo ano de casamento, depois de uma discussão sobre dinheiro. Embora não lembrasse de todo o filme, recordava que Augusto havia dividido com ela o último doce comprado na volta.
A caixa também guardava uma passagem de ônibus, um guardanapo com uma conta escrita a lápis, uma fita azul e uma fotografia fora de foco. Cada objeto remetia a uma situação diferente, como uma viagem em que os dois perderam a bagagem, o medo antes do nascimento da filha e a alegria de quitar uma dívida.
Ao rever a passagem, Augusto percebeu que a lembrança dele sobre a viagem não era igual à de Lídia. Ele dizia que ela havia entrado em pânico. No verso do papel, porém, estava uma frase escrita por ele: “Eu queria desistir antes de você encontrar a solução”. Os dois riram da diferença entre as versões.
Uma flor seca também chamou atenção. Ela lembrava o período em que o casal quase se separou e decidiu continuar junto sob novas condições. Augusto associava aquele momento a um almoço de reconciliação, enquanto Lídia considerava decisiva uma conversa silenciosa no quintal.
Uma coleção sem sequência completa
Lídia não havia guardado lembranças de todos os aniversários nem formado uma sequência das viagens. Os objetos eram escolhidos quando ela sentia que determinada situação poderia precisar de um apoio para ser lembrada no futuro.
O item mais recente era um papel com uma senha de atendimento, retirado dois anos antes, quando Augusto recebeu um exame tranquilizador após meses de preocupação. Para Lídia, aquele número representava o instante em que o futuro voltou a parecer longo.
Durante a tarde, os dois espalharam os objetos sobre a cama e escreveram notas com datas aproximadas. Quando discordaram sobre o ano ou o lugar de alguns acontecimentos, registraram as duas versões. Augusto acrescentou à coleção um parafuso do móvel que estavam desmontando. Lídia protestou, mas ele disse ter entendido o significado da prática.
Com a chegada do novo guarda-roupa, a caixa deixou de ficar escondida. Lídia a colocou em uma prateleira alta, protegida da luz e da umidade, onde Augusto também sabia encontrá-la. O casal decidiu rever os objetos uma vez por ano e acrescentar contexto às lembranças.
Mais tarde, Augusto cortou um pequeno pedaço da fita usada para medir o móvel, escreveu a data e colocou o fragmento na caixa. O acervo continuou ligado à iniciativa de Lídia, mas deixou de ser um segredo entre os dois.







