A China alcançou 40% das exportações globais de produtos transportados em contêineres na média móvel dos últimos três meses. A participação aumentou 2,5 pontos percentuais em nove meses e ocorre em meio à reorganização das cadeias de suprimentos e das rotas comerciais do país.
Jens Eskelund, presidente da Câmara de Comércio da União Europeia na China, afirmou que o crescimento do superávit comercial chinês preocupa parceiros como a União Europeia e os Estados Unidos. Na avaliação dele, produtos chineses com preços competitivos podem pressionar empregos e a indústria desses mercados. “Imaginava que talvez só por volta de 2030 a China chegaria perto dos 40%”, disse.
O superávit comercial da China com a União Europeia chegou a € 1 bilhão por dia no ano passado. O fluxo de contêineres entre as duas regiões também ficou mais desequilibrado: em 2019, para cada contêiner europeu enviado à China, 2,5 voltavam no sentido contrário. Em 2026, a relação passou a ser de um para seis.
Entre janeiro e agosto, o superávit comercial global chinês alcançou US$ 805,51 bilhões. O resultado coloca o país no caminho para superar o recorde de US$ 1,2 trilhão registrado no ano passado. Embora o comércio direto com os Estados Unidos tenha diminuído, parte das exportações chinesas para a América do Norte passou por outros países.
Produção e novas rotas
A Câmara de Comércio da União Europeia na China divulgou um relatório de 398 páginas no qual registra crescimento de 5,3% na produção industrial chinesa nos primeiros oito meses do ano. As vendas no varejo avançaram 0,4% em agosto, em um cenário de crise imobiliária prolongada e consumo doméstico comprimido.
Para a União Europeia, os dados indicam que o governo de Xi Jinping prioriza a expansão da capacidade produtiva em relação à solução de problemas internos. O bloco debate a adoção de novas tarifas sobre produtos chineses e pede reformas em setores como dispositivos médicos, serviços financeiros e transporte marítimo.
A China rejeita a acusação de excesso de capacidade. A agência estatal Xinhua afirma que considerar excedente tudo o que supera a demanda interna ignora a divisão internacional do trabalho. O governo chinês atribui o desempenho exportador a vantagens comparativas em áreas como veículos elétricos, baterias, aço e produtos fotovoltaicos.
A estratégia “China+1” e a expansão da Iniciativa do Cinturão e da Rota criaram uma estrutura produtiva distribuída. Vietnã, Tailândia e Índia passaram a concentrar etapas de montagem que exigem mais mão de obra, enquanto empresas chinesas fornecem bens intermediários, máquinas e componentes.
De 2023 a 2025, a Índia ampliou em mais de 40% as compras chinesas transportadas em contêineres. No mesmo período, os embarques para o Vietnã cresceram 36%, e os destinados à Tailândia, 37%. Esses países funcionam como extensões das cadeias de produção chinesas e ajudam a reduzir os efeitos da relação comercial tensa com os Estados Unidos.
Dados da Container Trades Statistics mostram que o volume de contêineres entre China e Estados Unidos recuou 3,4% nos últimos dois anos. A queda foi compensada pelo avanço dos fluxos do Sudeste Asiático, sobretudo do Vietnã, cujas exportações para os Estados Unidos cresceram mais de um terço.
O México também ganhou espaço como rota alternativa para produtos chineses destinados ao mercado americano. Entre 2023 e 2025, o volume de cargas entre China e México aumentou 8,7%, impulsionado por estratégias de nearshoring. No ano passado, o comércio entre Estados Unidos e China caiu 41% em relação a 2023.
Expansão na América do Sul
Na América do Sul, a China ampliou sua presença por meio de acordos de livre-comércio com Chile, Costa Rica, Equador, Nicarágua, Peru e Colômbia. Mais de 20 países sul-americanos aderiram à Iniciativa do Cinturão e da Rota.
O porto de Chancay, no Peru, concentra parte dessa estratégia. Com investimento de US$ 1,3 bilhão e participação majoritária da Cosco Shipping, o terminal iniciou operações em 2024. A estrutura foi projetada como uma porta de entrada transpacífica, fora das rotas tradicionais pelos Estados Unidos e pelo México.
Informações da Lloyd’s List Intelligence mostram expansão das rotas entre China e Peru e entre China e Chile. Para o Brasil, a capacidade chinesa passou de um navio porta-contêiner da classe Panamax em 2023 para várias centenas de milhares de TEUs em 2025. TEU é a medida equivalente a um contêiner de 20 pés.
A cooperação entre Brasil e China foi ampliada em infraestrutura, energia e logística durante o governo Lula. Entre os projetos está o Corredor Ferroviário Bioceânico, que ligaria Brasil, Bolívia e Peru ao porto de Chancay.
A capacidade portuária chinesa também cresceu. Em 2025, os terminais do país movimentaram 354,5 milhões de TEUs, alta de 7% em relação ao ano anterior. O volume adicional dos cinco maiores portos chineses foi aproximadamente equivalente à movimentação anual do porto de Roterdã, o maior da Europa.








