Antônio trabalha em cozinhas profissionais desde os 20 e poucos anos e, aos 52, já atuou em restaurantes, lanchonetes, hotéis e cozinhas industriais. Ao procurar emprego recentemente, encontrou uma vaga para auxiliar de cozinha que exigia ensino superior completo, além de experiência anterior e conhecimento básico de informática.
As tarefas descritas eram conhecidas por ele: higienizar utensílios, organizar a cozinha, apoiar os cozinheiros e limpar a área de trabalho. A função também incluía lavar louça. A exigência de graduação fez Antônio reler o anúncio, pois não entendeu a relação entre o diploma e uma atividade essencialmente operacional.
“Foi aí que eu parei e pensei: pediram faculdade para lavar prato”, afirmou.
Requisitos acima da função
A situação é um exemplo de inflação de requisitos, quando empresas passam a pedir escolaridade, idiomas, certificações ou experiência acima do necessário para determinada atividade. Entre os casos citados estão ensino superior em vagas que antes exigiam ensino médio, inglês para funções que raramente usam o idioma e dois ou três anos de experiência para posições de entrada.
Também podem aparecer exigências de conhecimento em vários sistemas e o acúmulo de tarefas sem mudança proporcional no salário. Para quem procura trabalho, o anúncio pode parecer acessível pela descrição da função, mas se tornar restritivo na etapa dos requisitos.
Antônio aprendeu a profissão na prática. Começou como ajudante em um restaurante pequeno, observando funcionários mais antigos e executando as tarefas do expediente. Com o tempo, aprendeu a organizar a higienização, evitar contaminação cruzada, posicionar utensílios e auxiliar em preparos básicos.
O salário da vaga continuava compatível com o de auxiliar de cozinha, apesar da exigência de uma formação que demanda anos de estudo. Para ele, a experiência acumulada não deveria ser descartada por causa da ausência de diploma universitário.
Antônio concluiu o ensino médio já adulto e nunca cursou universidade. Ele considera que a elevação da escolaridade mínima pode eliminar trabalhadores experientes antes mesmo de uma entrevista, sem medir necessariamente a capacidade de executar o serviço.
Outra seleção
Antônio não se candidatou à primeira oportunidade. Alguns dias depois, encontrou uma vaga com tarefas praticamente iguais, mas que pedia ensino fundamental ou médio, disponibilidade de horário e experiência desejável.
Ele foi chamado para conversar, fez um teste prático e começou a trabalhar na semana seguinte. Durante o expediente, ninguém perguntou sobre faculdade. A equipe quis saber apenas se ele conseguiria acompanhar o ritmo.
Antônio diz que não é contra a qualificação e que teria estudado mais se tivesse tido outras oportunidades quando era jovem. O que questiona é a distância entre certas exigências de recrutamento e o trabalho realizado depois da contratação.







