Algumas formigas do Sudeste Asiático recorrem a uma defesa irreversível quando um invasor se aproxima: as operárias menores contraem o abdômen até romper o próprio corpo e espalham uma secreção amarela, pegajosa e irritante sobre o adversário. O processo, chamado autotise, mata o indivíduo que o realiza, mas pode proteger a colônia.
Em 2018, pesquisadores descreveram formalmente a espécie Colobopsis explodens, que passou a ser usada como modelo para estudar esse comportamento. A espécie vive em florestas tropicais de Bornéu e faz parte de um grupo distribuído pelo Sudeste Asiático. Suas colônias ocupam árvores, muitas vezes em copas altas, e podem utilizar vários ninhos conectados por trilhas.
Como ocorre a autotise
As operárias menores têm reservatórios de glândulas mandibulares que se estendem pelo corpo e armazenam a secreção. Durante um confronto intenso, a formiga se aproxima ou agarra o inimigo, flexiona a parte posterior e contrai a musculatura até romper a parede do gáster, a porção final do abdômen.
O material liberado se espalha e adere ao invasor. Dependendo da situação, pode imobilizar, repelir ou matar o adversário. Não é uma explosão com fogo ou pressão: trata-se de uma ruptura corporal deliberada, desencadeada durante a defesa. Em C. explodens, a secreção tem cor amarela intensa, odor semelhante ao de especiarias e compostos fenólicos. Estudos posteriores identificaram atividade antimicrobiana relevante, embora a função ecológica completa ainda esteja em investigação.
Divisão de tarefas na colônia
A autotise está associada principalmente às operárias menores do grupo Colobopsis cylindrica. Outras castas desempenham funções diferentes. As operárias maiores, conhecidas popularmente como soldados, têm cabeça larga e achatada e conseguem bloquear entradas estreitas do ninho, funcionando como uma barreira física.
As operárias menores patrulham, buscam alimento e podem executar a autotise. Os soldados fecham passagens, enquanto as rainhas concentram a reprodução. A colônia também protege crias, alimento e território por meio de ações coletivas.
A espécie descrita em 2018 foi escolhida como modelo por ser relativamente abundante nas áreas estudadas e apresentar autotise marcante. Ela não é a única formiga com esse comportamento: a autodestruição também ocorre em espécies próximas e surgiu de forma independente em alguns cupins.
Por que o sacrifício pode favorecer a colônia
As formigas são insetos eussociais, com divisão reprodutiva, cooperação no cuidado das crias e gerações sobrepostas. O sucesso evolutivo de uma operária pode estar ligado à proteção de indivíduos aparentados. Se a defesa impede a entrada de um inimigo e mantém a salvo a rainha, as larvas e outras integrantes da colônia, o comportamento pode favorecer a transmissão compartilhada de genes.
A operária não precisa avaliar conscientemente o custo da ação. A autotise resulta de mecanismos biológicos moldados pela seleção natural e não ocorre em qualquer contato. A postura defensiva e a ruptura do corpo aparecem diante de adversários, mas a frequência, os gatilhos e a eficiência variam conforme a espécie, a ameaça e o contexto.
A defesa mostra como a colônia funciona de maneira integrada. Castas, trilhas, ninhos e respostas químicas distribuem os riscos entre os indivíduos. O comportamento é extremo, mas faz parte de uma organização social em que preservar a estrutura reprodutiva pode ser mais importante, do ponto de vista evolutivo, do que manter cada operária viva.







