A geleira Taylor, nos Vales Secos de McMurdo, abriga um reservatório subterrâneo de salmoura rica em ferro que emerge periodicamente e forma a Blood Falls, uma corrente avermelhada sobre o gelo.
A cor não é causada por algas microscópicas. Quando o fluido subterrâneo entra em contato com o ar, o oxigênio atmosférico oxida o ferro dissolvido. O processo produz compostos ferruginosos que se depositam na superfície da geleira e tingem a parede de gelo.
Salmoura preservada sob o gelo
A concentração elevada de sal marinho mantém o líquido em estado fluido mesmo sob temperaturas inferiores às da água pura. Durante a formação do gelo, os sais foram expelidos da matriz sólida e se concentraram no fluido remanescente, com cloreto de sódio acumulado em canais que atravessam fendas profundas na rocha.
O avanço das geleiras aprisionou água do mar nos vales continentais há mais de um milhão de anos. A massa de gelo isolou o antigo fiorde do oceano aberto, enquanto o reservatório permaneceu sem luz solar direta e sem oxigênio atmosférico por centenas de milênios.
A salmoura se mantém nas proximidades do lago Bonney e pode alcançar a borda frontal do gelo por canais pressurizados. A topografia montanhosa conteve a água nos vales secos, a espessura do gelo reduziu a evaporação e o calor basal da crosta terrestre contribuiu para manter o líquido fluido.
Micro-organismos no reservatório
Análises genéticas de amostras da geleira Taylor identificaram células metabolicamente ativas em sedimentos e lama rica em ferro. Os dados indicam comunidades de microeucariotos que sobrevivem sem dependência direta da luz.
Uma equipe liderada por Angela Zoumplis e Jill A. Mikucki confirmou a herança marinha desses organismos em uma pesquisa sobre microeucariotos preservados sob a geleira antártica. Entre as linhagens identificadas estão diatomáceas, dinoflagelados, haptófitas e ciliados.
As diatomáceas divergiram geneticamente das espécies observadas em McMurdo Sound. Os dinoflagelados mantiveram atividade transcricional no ambiente escuro, enquanto haptófitas e ciliados reforçam a persistência de organismos marinhos em salmouras polares.
A sobrevivência celular sob massas espessas de gelo é usada como modelo para pesquisas em astrobiologia. Oceanos subterrâneos salinos cobertos por crostas congeladas em corpos celestes distantes apresentam condições comparáveis, e o sistema da Antártida orienta métodos de amostragem espacial. O estudo também indica que ecossistemas aquáticos podem permanecer isolados da atmosfera superficial por milhões de anos.







