A esquerda precisa apresentar um programa radical e anticapitalista para enfrentar o avanço da extrema-direita, afirma a historiadora portuguesa Raquel Varela. Para ela, a proposta deve produzir mudanças concretas no cotidiano dos trabalhadores e estar ligada à organização social, não apenas à disputa eleitoral.
Especialista em revoluções e no movimento operário, Varela é professora da Universidade de Lisboa e fundadora do jornal online Maio, apoiado por sindicatos e organizações sociais de Portugal. Na avaliação dela, a extrema-direita atual tem força principalmente eleitoral, e não a mesma base social das correntes fascistas do início do século passado.
Extrema-direita e fim do pacto social
Varela identifica como elemento comum a violência organizada e destaca o crescimento da ideologia contra imigrantes na Europa. Ela afirma, porém, que o cenário atual não deve ser equiparado ao dos anos 1930. A historiadora avalia que os grupos de extrema-direita perceberam o fim do pacto social construído no período posterior à Segunda Guerra Mundial e se preparam para um conflito de classe mais intenso.
Segundo Varela, a crise de 2008 marcou o fim desse equilíbrio para todas as gerações. A preparação da burguesia, na leitura da historiadora, envolve Inteligência Artificial, vigilância massiva e estímulo a organizações de extrema-direita. Por isso, ela considera que o movimento tem menos base social do que o fascismo e o nazismo tinham no início do século passado.
A historiadora atribui à esquerda parte da perda de apoio popular. Ela critica a adesão a uma política assistencialista, baseada na redistribuição de renda e na defesa das instituições da democracia burguesa. Para Varela, essa posição não oferece emancipação aos trabalhadores nem responde à deterioração dos serviços públicos.
Ao citar Portugal, ela menciona problemas como a falta de atendimento nos serviços de saúde, a perda de qualidade da escola, as ameaças às aposentadorias e a falta de habitação. Na avaliação dela, a evocação das conquistas da Revolução dos Cravos não basta para trabalhadores que enfrentam dificuldades concretas no presente.
Organização e frente única
Para recuperar relevância, a esquerda deveria reconstruir organizações capazes de acompanhar as pessoas ao longo da vida e formular uma política revolucionária. Varela critica a centralidade atribuída às eleições, aos Parlamentos e ao chamado voto útil, que, segundo ela, pode levar ao apoio a governos liberais contra os trabalhadores.
“É preciso ter um programa radical, anticapitalista”, afirma a historiadora. Ela ressalta que o programa não pode ser apenas propagandístico: precisa orientar a organização e oferecer respostas ao cotidiano dos cidadãos.
Varela também defende a retomada do conceito de frente única, com liberdade para o debate. A historiadora critica o que chama de combinação entre institucionalismo e fanatismo em setores da esquerda e afirma que uma atuação conjunta exige um debate aberto e fraternal.
Educação e formação crítica
Na educação, Varela critica a escola voltada à preparação rápida para o mercado de trabalho e também o relativismo que, segundo ela, rejeita conhecimentos universais. A historiadora defende que a escola transmita o melhor conhecimento produzido pela humanidade, incluindo conteúdos sobre diferentes povos e culturas.
Ela cita o filósofo Kant como parte desse patrimônio universal e afirma que a inclusão da história da África e dos vikings deve ocorrer dentro de uma formação comum, e não por meio de currículos separados para cada grupo de estudantes.
Para Varela, a escola deve desenvolver a abstração, o pensamento crítico e o raciocínio. Esse processo exige anos de currículo, leitura dos clássicos, escrita e professores qualificados, com bons salários. Ela também aponta o empreendedorismo como um obstáculo quando transmite a ideia de que estudar não vale a pena.
A historiadora resume sua proposta de organização social da seguinte forma: “Temos que saber reconstruir, nos escombros do pacto social e do Estado social, organizações do berço à cova.”








