SÃO PAULO — A exposição Armadilha Moderna, na Pinacoteca de São Paulo, reúne cerca de 230 desenhos, pinturas e retratos de Ismael Nery. A mostra revisita a produção do artista e questiona leituras que o associam diretamente ao surrealismo, ao cubismo ou a um distanciamento dos modernistas brasileiros.
Nascido em Belém, em 1900, Nery mudou-se com a família, aos 9 anos, para o Rio de Janeiro. Aos 17, entrou na Escola Nacional de Belas Artes. Em 1920, complementou a formação na Académie Julian, em Paris, onde teve contato com nomes do surrealismo e do cubismo, como André Breton, Marcel Noll e Marc Chagall.
O artista como personagem
A mostra inclui o desenho História de I. Nery, no qual o artista cria uma cena ambientada no cais de Belém, com mulheres dançando ao redor de um homem e um navio afundado após uma tempestade. A imagem faz parte da construção de uma figura cercada por drama, religiosidade e mistério.
Nery previu a própria morte, aos 33 anos, e pediu ao poeta Murilo Mendes, seu amigo e principal interlocutor, que destruísse sua produção depois de sua morte. Mendes não cumpriu o pedido. A imagem do artista atormentado também foi formada por relatos de Mendes e de Adalgisa Nery, sua esposa.
“O Nery é um personagem literário”, afirma o curador Yuri Quevedo. Segundo ele, Nery nunca deu uma entrevista, e os relatos sobre sua vida seguiram referências associadas a artistas como Van Gogh e Michelangelo.
O trabalho do artista é marcado por autorretratos e por imagens relacionadas à própria história. Para Quevedo, Nery transformou o corpo em um campo de investigação da modernidade. A figura humana aparece como espaço para examinar religião, erotismo e finitude.
Corpo, religião e Essencialismo
O Essencialismo, conceito presente na pesquisa de Nery, parte da ideia de que tempo e espaço corrompem, adoecem e envelhecem o corpo. A pintura funciona como campo de experimentação, enquanto o corpo se torna o laboratório dessa investigação.
A formação do artista foi influenciada pela religião e pela medicina: seu tio-avô era cônego, e seu pai, médico. O pensamento católico aparece na ideia do corpo como lugar de experiência espiritual, sem recorrer a imagens religiosas convencionais ou a uma reflexão moral sobre a religião.
Nery também explorou a fusão entre características masculinas e femininas. Adalgisa não aparece apenas como modelo, mas como colaboradora na construção de um corpo pleno. Em suas obras, o rosto pode ser reduzido a um formato oval com um círculo representando o olho, enquanto aberturas revelam as vísceras. O artista tinha uma coleção de livros de anatomia.
As leituras questionadas pela exposição
Após a morte de Nery, sua produção permaneceu durante décadas em coleções privadas e no círculo de amigos próximos, fora de museus e revisões críticas. O reconhecimento do público e da crítica começou em 1965, com a inclusão de um núcleo de trabalhos na Sala Especial de Surrealismo e Arte Fantástica da 8ª Bienal de São Paulo.
A associação ao surrealismo se tornou, para Quevedo, a principal armadilha na interpretação da obra. “Ele não tinha o mesmo compromisso que os surrealistas europeus”, afirma o curador. A circulação espaçada e em pequenas quantidades teria contribuído para uma visão fragmentada de sua produção.
Outra leitura questionada é a de que Nery teria passado por uma fase cubista por fragmentar os corpos. Para o curador, a geometrização não elimina a profundidade nem integra completamente figura e fundo, como ocorre no cubismo. Ela transforma o corpo em uma construção que pode ser reorganizada.
A exposição também contesta a ideia de que Nery não se interessava pela questão nacional. Em Autorretrato Rio/Paris, maior obra da mostra, o artista se coloca entre Brasil e França, estende a mão à figura da mulata e dá as costas à Torre Eiffel. A imagem aproxima sua investigação sobre a modernidade das discussões sobre identidade nacional e representação do corpo.








