A nanotecnologia se tornou uma das principais frentes de pesquisa para melhorar o uso medicinal da cannabis. A proposta é encapsular os princípios ativos em estruturas microscópicas, protegendo os compostos durante o percurso pelo organismo e reduzindo perdas antes da absorção.
A baixa absorção por via oral é uma das limitações das terapias atuais. Com maior disponibilidade do composto, a expectativa é obter os mesmos efeitos terapêuticos com doses menores e em menos tempo. Segundo a médica Mariana Maciel, o início da ação pode cair de cerca de duas horas para dez a 30 minutos.
Mariana, que tem 35 anos, mudou-se para o Canadá em 2018. Enquanto aguardava a validação do diploma e não podia exercer a medicina no país, trabalhou como garçonete. Três meses depois, aceitou uma vaga de consultora científica em uma empresa de cannabis medicinal. A experiência mudou sua trajetória profissional, e ela passou a atuar na pesquisa de nanocanabinoides.
A médica cofundou a Thronus Medical, em Vancouver, uma das empresas que levaram a tecnologia ao Brasil. Atualmente, os produtos chegam ao país por importação. Mariana aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para comercializar os medicamentos em farmácias brasileiras e planeja instalar uma fábrica no país.
Pesquisas e limitações
Os nanocanabinoides são investigados em áreas como epilepsia, câncer, doenças neurodegenerativas, dor crônica e transtornos mentais. Dados da plataforma ClinicalTrials.gov, mantida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, indicam cerca de 500 estudos no mundo sobre o uso da tecnologia em 117 condições médicas.
Apesar do avanço, boa parte das pesquisas ainda está em estágio pré-clínico. Faltam estudos mais robustos em humanos para avaliar a eficácia e a segurança das formulações. A pesquisadora Micheline Donato, que tem pós-doutorado pela Universidade de Nottingham, no Reino Unido, afirma que cada nanotecnologia tem características próprias e deve ser analisada individualmente.
A capacidade de atravessar barreiras biológicas com mais facilidade também é motivo de atenção. A característica que favorece a absorção pode aumentar o risco de acúmulo em órgãos como o fígado. Por isso, a avaliação das formulações e a prescrição moderada são necessárias.
O mercado global de cannabis medicinal foi avaliado em US$ 19,7 bilhões em 2025 e pode chegar a US$ 97,2 bilhões em 2033, segundo a Grand View Research. No Brasil, as vendas de medicamentos à base da planta cresceram 35,6% no primeiro quadrimestre de 2026. Cerca de 873 mil brasileiros usam cannabis medicinal, em um mercado de quase R$ 1 bilhão por ano.
A consultoria Kaya Mind estima potencial de R$ 9,5 bilhões em faturamento anual e 6,9 milhões de pacientes. Em janeiro, a Anvisa aprovou um marco regulatório que permite o cultivo da planta por empresas e instituições de pesquisa e a produção de medicamentos com insumos obtidos no país. Ainda assim, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor titular aposentado da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), considera fracas as evidências médicas disponíveis.








