FRANÇA — Mais de 400 escolas foram fechadas na sexta-feira, 2 de outubro, durante uma onda de protestos estudantis que se espalhou pelo país. Os manifestantes reclamam de prédios deteriorados, jornadas longas e falta de professores. O movimento começou há quase duas semanas em Seine-Saint-Denis, na região norte de Paris, e alcançou várias cidades nos últimos dias.
Liceus foram bloqueados, contêineres queimados e confrontos com a polícia se intensificaram. O governo informou que cerca de 300 policiais e bombeiros receberam atendimento médico por ferimentos. Aproximadamente 2.000 pessoas, principalmente menores de idade, foram detidas.
Pressão sobre o orçamento
A mobilização ocorre enquanto a França se prepara para aprovar na Assembleia Nacional um ajuste fiscal estimado em € 54 bilhões, equivalente a US$ 60,8 bilhões. O objetivo é reduzir a pressão sobre as contas públicas, depois de o déficit chegar a 5,1% do PIB e de a dívida pública atingir 119% do PIB no segundo trimestre.
Os percentuais estão acima dos parâmetros da União Europeia, que definem limite de 3% para o déficit e de 60% para a dívida. O plano apresentado pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu prevê congelamento dos salários do funcionalismo, redução de benefícios fiscais, cortes em aposentadorias e restrições para despesas locais e de saúde.
Apesar do ajuste, a educação aparece como uma das maiores despesas da proposta orçamentária. O governo reservou € 65,5 bilhões, ou US$ 74 bilhões, para as escolas no próximo ano, acima dos € 63,4 bilhões previstos para a defesa.
A pressão sobre os servidores também aumentou. Professores, enfermeiros e trabalhadores de emergência participaram de manifestações, e mais de 200 mil pessoas protestaram em um único dia, segundo o Ministério do Interior.
Mercado e cenário político
A crise fiscal chegou ao mercado de títulos públicos. O rendimento do título francês OAT com vencimento em 10 anos estava em 4,914%, próximo do maior nível em 24 anos. Os papéis continuam considerados atraentes pela liquidez e pelo rating elevado, mas a incerteza sobre o Orçamento de 2027 elevou a volatilidade.
O Fundo Monetário Internacional defende uma estratégia fiscal plurianual para evitar uma deterioração adicional e preservar a confiança dos mercados. Sem uma consolidação fiscal considerada crível, investidores podem exigir prêmios maiores para manter a dívida francesa, aumentando os custos de financiamento.
As manifestações também ampliaram a disputa política. Autoridades acusaram a França Insubmissa (LFI) e seu candidato à Presidência, Jean-Luc Mélenchon, de estimular parte dos atos. O partido nega envolvimento direto.
Mélenchon tem cerca de 40% de apoio entre jovens de 18 a 24 anos, segundo as pesquisas citadas. A Reunião Nacional, liderada por Marine Le Pen, aparece com 32% das intenções de voto para a eleição presidencial do próximo ano, seguida por Mélenchon, com 15,7%.
O governo de Emmanuel Macron não tem maioria na Assembleia Nacional desde as eleições antecipadas de 2024. O Parlamento fragmentado dificulta a aprovação do orçamento de 2027, considerado central para o ajuste.
Crescimento fraco
A economia francesa deve crescer 0,6% em 2026 e 1% em 2027, conforme as projeções citadas. O país enfrenta preços elevados de energia, incerteza política e desaceleração do consumo privado. A previsão é de que o desemprego suba para 8,3% em 2026, com impacto maior entre os jovens.
Os protestos estudantis têm peso simbólico na França desde maio de 1968, quando estudantes e trabalhadores paralisaram o país. A mobilização atual, porém, ocorre em meio à disputa sobre como reduzir despesas sem ampliar a resistência social ou comprometer a credibilidade financeira do governo.








