ALASCA — Camadas preservadas na presa de um mamute-lanoso permitiram estimar os deslocamentos do animal ao longo de quase três décadas. A análise combinou sinais químicos da alimentação e do ambiente para reconstruir milhares de quilômetros percorridos, sem depender de pegadas preservadas.
O mamute macho recebeu o apelido de Kik. A sequência registrada em sua presa indica que ele ampliou a área de circulação quando era jovem e fez viagens extensas antes de morrer há cerca de 17 mil anos.
Como a presa registra o percurso
As presas crescem durante a vida e formam camadas de dentina em ordem cronológica. Ao cortar o dente no sentido longitudinal, os pesquisadores conseguem examinar o material desde a ponta, correspondente ao período mais antigo, até a base, formada mais recentemente.
A idade e a estação de cada camada são estimadas por medições e comparações. O estrôncio tem papel central nesse processo: rochas de diferentes partes do Alasca apresentam assinaturas isotópicas próprias. As plantas absorvem esses elementos, os animais se alimentam delas e parte do sinal chega aos tecidos em crescimento.
Para criar uma referência geográfica, pesquisadores mapearam os valores isotópicos do Alasca a partir de dentes de pequenos mamíferos. Depois, compararam esse mapa com as amostras da presa de Kik. A correspondência indica regiões possíveis, mas não fornece coordenadas exatas.
Modelos que reuniram estrôncio, oxigênio, idade e barreiras da paisagem apontaram rotas plausíveis. O resultado é uma reconstrução probabilística, com margens de incerteza, e não um registro equivalente a GPS.
Sinal de fome no fim da vida
Os isótopos de nitrogênio aumentaram nas camadas finais da presa. Esse padrão é compatível com o consumo dos próprios tecidos durante um período de jejum ou inanição e sugere estresse nutricional próximo à morte.
O dado não determina sozinho a causa da falta de alimentação. Doença, ferimento, inverno severo e outras possibilidades permanecem abertas sem evidências adicionais.
A trajetória estimada mostra quanto espaço um grande herbívoro podia ocupar e como o deslocamento mudava ao longo da vida. Uma única presa não representa todos os mamutes, mas oferece uma biografia individual que pode ser comparada com a de outros animais para distinguir padrões populacionais de histórias particulares.







