Os cortes de geração de energia eólica e solar determinados pelo Operador do Sistema Elétrico Nacional (ONS) aumentaram e ficaram mais intensos em 2026, segundo estudo da consultoria Volt Robotics. O levantamento considera os dados de janeiro a agosto deste ano.
Nesse intervalo, o volume médio de cortes chegou a 3.853 megawatts-hora (MWh) médios, alta de 18,3% sobre o mesmo período de 2025. A energia solar e eólica não aproveitada seria suficiente para abastecer as residências de São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza durante o período analisado.
Cortes críticos
A Volt Robotics registrou 51 dias com cortes críticos em 2026. Nesses casos, em ao menos um momento do dia, mais de 60% da energia renovável disponível foi cortada. Em 12 desses dias, o índice chegou a 80%.
O total corresponde a um dia crítico a cada cinco dias, considerando os 243 dias transcorridos no período. Em 2025, foram registrados 30 dias com cortes acima de 60%, dos quais 7 chegaram ao patamar de 80%.
Para Donato Filho, CEO da Volt Robotics, o principal sinal do levantamento está na profundidade das restrições, e não apenas no aumento de 18% do índice de curtailment. “Isso mostra que a operação está no limite”, afirmou.
O estudo aponta que os cortes mais intensos estão relacionados à falta de flexibilidade operacional, e não somente ao excesso de energia na rede. Usinas térmicas precisam permanecer disponíveis para atender à demanda no fim do dia, o que reduz a margem de operação durante as manhãs de alta geração solar.
Nova classificação
Atualmente, o ONS divide os cortes em três modalidades. Os de Razão Energética (ENE) ocorrem quando a oferta supera o consumo. Os de Razão Elétrica (REL) estão ligados à indisponibilidade de linhas de transmissão por manutenção ou falhas.
Já os cortes de Razão Confiabilidade (CNF) são aplicados quando a rede, embora disponível, pode apresentar comportamento indesejado caso toda a geração renovável seja escoada, aumentando o risco de falha.
A Volt Robotics defende que as restrições também sejam classificadas pela falta de flexibilidade, com metodologia auditável e transparente. A avaliação considera que, quando quase toda a geração solar e eólica controlável for cortada, haverá menos recursos para responder a uma queda de consumo, a um desvio de previsão ou à perda de outro componente da rede.
Segundo Donato, a expansão da geração distribuída solar pode intensificar os cortes profundos e levar à restrição de outras fontes renováveis, como Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), usinas de biomassa e usinas de energia distribuída.
Medidas propostas
A consultoria desenvolveu modelos para simular respostas adotadas em outros países. No Texas, nos Estados Unidos, a falta de transmissão foi enfrentada com uma regulação que acelerou a entrada de sistemas para conectar a geração do oeste aos centros de carga do leste e do sul.
Na China, a flexibilização de usinas térmicas a carvão buscou permitir maior absorção da geração renovável. Na Espanha, a instalação de compensadores síncronos foi usada para aumentar a inércia da rede e reduzir a propagação de distúrbios.
A Volt Robotics recomenda que o Ministério de Minas e Energia lidere um plano integrado com o ONS e outros órgãos do setor elétrico. A proposta prevê ampliar a transmissão onde houver gargalos de escoamento, instalar recursos de inércia onde faltar estabilidade e adotar baterias ou flexibilização térmica para melhorar a resposta operacional.








