Os juros dos títulos do governo dos Estados Unidos subiram nesta quinta-feira, 10 de setembro, em meio à combinação de petróleo mais caro, preocupações com as contas públicas e maior disputa por recursos no mercado. A taxa dos Treasuries de 30 anos alcançou o maior nível desde 2007. O rendimento dos papéis de 10 anos também avançou e atingiu o maior patamar intradiário desde outubro de 2023.
A valorização do petróleo reforçou as preocupações com a inflação. O Brent superou US$ 107 por barril em meio às tensões no Oriente Médio. Para Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, o conflito acrescenta pressão sobre os preços enquanto a economia segue resiliente. “A guerra traz um componente de pressão adicional sobre a inflação”, afirmou.
O movimento também apareceu em outros mercados de dívida. No Reino Unido, os custos de financiamento chegaram ao maior nível desde 2007. Na Alemanha, os juros dos títulos alcançaram o maior patamar desde 2011.
Pressão fiscal e oferta de títulos
Nos Estados Unidos, uma promessa de Donald Trump ampliou as dúvidas sobre a trajetória dos gastos federais. O presidente afirmou que pagaria um “dividendo” de US$ 5 mil a cada adulto americano se os republicanos mantivessem o controle do Congresso nas eleições de meio de mandato. A medida poderia custar mais de US$ 1 trilhão.
A proposta foi apresentada enquanto o secretário do Tesouro, Scott Bessent, busca reduzir os custos de financiamento do governo com a ampliação das recompras de títulos. A presença menor de compradores tradicionais, como China e Japão, aumenta o desafio para absorver as novas emissões americanas.
Chicoli resumiu a dinâmica como uma relação entre oferta e demanda: para atrair investidores adicionais, os títulos precisam oferecer retornos maiores. Rafael Passos, sócio da Ajax Asset, afirma que essa estrutura começou a mudar depois da pandemia, quando houve forte emissão de papéis para financiar estímulos à economia. Desde 2022, as taxas passaram por uma reprecificação, com maior participação do setor privado na absorção da dívida.
As empresas de tecnologia também passaram a buscar recursos no mercado de dívida para financiar investimentos, elevando a concorrência pelo capital dos investidores. Para Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue, a alta dos juros não representa, isoladamente, uma crise de confiança na dívida americana. Ele relaciona o avanço recente ao receio de inflação mais persistente e observa que o term premium americano permanece abaixo da média dos últimos 12 meses.
A procura pelos papéis continuou. Um leilão de US$ 22 bilhões em Treasuries de 30 anos atraiu forte demanda nesta quinta-feira, mesmo durante a queda dos preços dos títulos. Passos avalia que as recompras conseguem reduzir parte da volatilidade, mas não alteram os desafios estruturais nem a influência dos fundamentos fiscais sobre os juros longos.
Chicoli considera prematuro afirmar que as taxas atingiram o pico. Para o estrategista, os fatores de pressão continuam ativos e podem provocar novos episódios de volatilidade.








