A alta dos juros na Europa e a pressão inflacionária nos Estados Unidos aumentaram a incerteza sobre a próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) no Brasil. O Banco Central Europeu (BCE) elevou a taxa básica para 2,5% na quinta-feira, 10 de setembro, enquanto a inflação ao produtor americana chegou a 5,4% em agosto.
A reunião do Copom ocorre na próxima semana. Até poucos dias atrás, o mercado considerava provável uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, atualmente em 14% ao ano. O ambiente externo, porém, passou a dificultar a continuidade do ciclo de cortes.
Quando os juros das economias centrais sobem, a diferença entre as taxas brasileiras e internacionais tende a diminuir. Esse movimento pode reduzir a atração de capital estrangeiro, pressionar o real e encarecer produtos importados. Combustíveis, fretes e custos industriais também podem ser afetados pela alta internacional do petróleo.
Inflação e energia no exterior
Na zona do euro, a inflação ficou em 3,3% em agosto, acima da meta de 2%, enquanto os preços de energia avançaram mais de 14%. O petróleo superou US$ 100, em um cenário relacionado ao conflito no Oriente Médio e à ameaça ao fluxo de mercadorias pelo Estreito de Ormuz.
Analistas europeus avaliam que o BCE ainda pode elevar os juros até dezembro. A instituição informou que os próximos passos dependerão da evolução do conflito e dos efeitos sobre salários e preços.
Nos Estados Unidos, a inflação ao produtor de 5,4% elevou para 74% a probabilidade de aumento dos juros na próxima reunião do Federal Reserve. Os mercados passaram a considerar pelo menos uma alta até outubro. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos superou 4,9%, maior nível desde outubro de 2023.
O petróleo WTI ficou acima de US$ 100, e a gasolina superou US$ 4 por galão durante metade do ano. Esses fatores aumentam a pressão sobre o Federal Reserve, que vinha tentando conduzir uma desaceleração gradual da economia.
Impacto sobre o Copom
O Banco Central brasileiro vinha reduzindo a Selic em etapas, apoiado pela desaceleração da inflação doméstica e pela melhora das expectativas. A alta dos preços no atacado americano, impulsionada pela energia, pode mudar esse cenário ao fortalecer o dólar e acrescentar pressão à inflação brasileira.
O Copom terá de avaliar a queda da inflação e a moderação do crescimento econômico, fatores que favorecem novos cortes, mas também considerar o risco de maior volatilidade cambial. Uma redução muito distante do movimento das economias desenvolvidas poderia pressionar o câmbio e dificultar o processo de desinflação.
Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, os bancos centrais estão reagindo à inflação acima das metas e aos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre a energia. “A alta dos juros lá fora, nesse momento, não deve levar a uma mudança significativa nos planos do Copom”, afirmou.
João Debom, sócio da Supernova Investimentos, considera que o cenário externo pode reduzir o espaço para o Brasil cortar juros na mesma intensidade de outros momentos. O mercado já projetava a Selic em 13,75% no fim do ano, mas uma nova alta nos Estados Unidos poderia influenciar a decisão do Copom.
Debom avalia que o Banco Central brasileiro não deve abandonar o ciclo de flexibilização monetária, porque a inflação interna ainda oferece espaço para cortes. A reunião, no entanto, pode adotar um tom mais cauteloso, com possibilidade de adiamento ou redução da magnitude do corte esperado.
Vital afirma que a taxa brasileira permanece em nível restritivo após os cortes das últimas quatro reuniões. Segundo ele, as projeções do Banco Central se aproximam do centro da meta e os juros elevados já afetam a atividade econômica. Por isso, o comportamento das decisões do BCE e do Federal Reserve será acompanhado de perto pelo mercado brasileiro.








